(Publicado em 1977 no Jornal do Brasil)
( cinco estrelas)
É claro que o Zeffirelli não é nenhum gênio, mas não é isso que interessa aqui. Ele, ao menos, teve o bom senso de se inspirar no modelo adequado, isto é, aquele incrível Cristo do Buñuel que aparece em apenas uma seqüência do Via Láctea, escapando assim de cometer a mesma tolice do Pasolini, que reduziu o nosso Cristo a um agitadorzinho barato, uma espécie de candidato a Baader-Meinhoff, Zeffirelli, menos imediatista, preferiu o caminho mais difícil e mais profundo ao tentar redescobrir, intacta, nas velhas palavras, a emoção que as originou ( vide o Padre Nosso dito pelo Cristo). Para isso, além de contar com um excepcional roteiro, Zeffirelli, como bom italiano, soube gastar o dinheiro nas coisas certas, tais como tempo de filmagem, elenco, detalhes, etc. O caráter de um pais pode, aliás, ser intuído pela produção de seus filmes: os americanos, por exemplo, gostam de gastar em batidas de carros, conflitos de ruas, curras coletivas, filhos de Sam, etc., ao contrário dos italianos, cujo dinheiro disponível serve para comprar a própria realidade e guardá-la para sempre. Jesus de Nazaré é um filme cheio de dignidade e emoção, e talvez necessite, para ser bem aproveitado, de uma certa cumplicidade prévia com o espectador. Ou seja, não é filme para ateu.
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