(Publicado no Jornal do Brasil em 1977)
(cinco estrelas)
Deve ter sido o melhor filme do mundo para se fazer: dinheiro do Irã à vontade ( e não há melhor dinheiro para se torrar em cinema que o do Xainxá da Pérsia); inteira liberdade de movimentos, fruto do prestígio pessoal de Orson, que pôde fazer qualquer filme que tivesse vontade; François Reichenbach fazendo todo o trabalho de cozinha da direção, já que Orson, disfarçado de ator, dá ordens em cena, pede bifes e vinhos, fala sem parar e passeia de capa preta sob os olhares de admiração de Reichenbach e de toda a equipe. Com tudo isso à mão, Orson não bobeou e fez uma obra inteiramente diferente de tudo o que já havia feito, e só isso já torna o filme excepcional. É claro que essas condições de produção foram armadas pelo próprio Orson, e isso é um dado-chave para se aproveitar o filme. Ele ceratamente, é quem mais se diverte e a impressão que se tem é de que, mesmo sem filme nenhum, ele estaria naqueles mesmos lugares, cercado por aquelas mesmas pessoas e fazendo as mesmas coisas. O ato de filmar deveria ser sempre assim, uma operação limpa e sem sofrimentos desnecessários, já que o que está realmente em jogo são as idéias e, em tragédia de Kane entre as colunas de Xanadu, ou num simples restaurante em Ibiza cercado de mulheres e falsificadores. O discurso é organizadíssimo na aparente baderna e nisso o filme lembra o Di, onde Glauber, como Orson, não junta celulóide, monta idéias.
|