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O mundo tem quatro ruas! Imprimir Enviar para um amigo
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Escrito por Luiz Carlos César, em 24-09-2007 14:25
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- O que foi que você disse?
- Que o mundo tem quatro ruas!
- É que você só sabe contar até quatro, seu matuto.
- E é?
- É. De onde você pensa que vem o ônibus que chega na cidade?
- Vem da capital.
- Então? Como é que o mundo só tem quatro ruas?
- E o que tem mais lá?
- Tem prédio, tem hotel, tem gente andando igual a formigueiro.
- E é?
- É. As ruas tem calçamento e tem banco, onde se guarda o dinheiro.
- E tem muito dinheiro?
- Tem sim, tem até uma tal de loteria.
- Loteria?
- É. A gente aposta um dinheiro e pode receber um montão.
- E fica rico?
- Fica. Dá até pra comprar fazenda, boiada, trator...
- Pois intão, eu quero aposta nessa tar de loteria...
- Sei, mas vamu descendo desse lajedo que tá na hora.

Sapicuá também é nome de cidade, pelo menos naquele sertão onde moravam Trintão e Giramundo. O povoado fica na beira de uma serra, de onde, em cima de uma pedra, os dois amigos conversavam.
Mas a descida do morro pode ser tão cansativa quanto a subida. Pisa aqui, pisa ali, escorrega lá, e Giramundo, parando para descansar, observava as aves escuras, que no alto do céu, voavam em círculo aproveitando as correntes de ar que subiam da terra.

- É...
- Acuma? - perguntou Trintão aproveitando para tomar fôlego.
- Urubu é feio, mas pode voar...

Já era à tardinha quando se despediram indo cada um para sua casa.
Giramundo, no entanto, pegou o rumo de um boteco.

- Bote uma ai, Mané, que eu pago depois.
- Dá não, viu, fiado só amanhã mesmo. - respondeu o comerciante.

Giramundo saiu vexado pela desfeita, e no caminho encontrou com um vereador da cidade.

- Seu Nadinho!, a quanto tempo não lhe vejo...
- Como vai seu moço? - retribuiu o vereador.
- Sabe como é? Eu estava pensando ...
- Olha Giramundo, deixa pra outra hora que estou um tantinho apressado. Depois nos falamos viu. Até logo...

Giramundo saiu acabrunhado, virou na primeira esquina e pegou o rumo de casa. Não era a primeira vez que passava por uma desfeita daquelas. Não queria beber de graça, não senhor. Iria pagar a cachaça no dia seguinte. Não sou vagabundo, pensou consigo. Tenho ainda um saco de feijão que sobrou da última safra, amanhã vou vender, fazer dinheiro, depois vou pegar a estrada, chegar na capitá e apostar nessa tar de loteria...
Um mês depois, a fila do orelhão estava grande, era o único da cidade que funcionava, e quando alguém estava falando a platéia ficava ouvindo.

- Então Giramundo? Quando é que você vem? O que? Fale mais alto..., a ligação tá ruim... Não dá pra entender direito... Como? Foram quantos pontos? Na cabeça? Mas não volta sem o dinheiro? Loteria? Olha, não dá pra entender direito não, viu. Aqui tá tudo bem. Mas vê se volta logo. Tá bom, não comento com ninguém.

Quando a irmã de Giramundo se afastou, Joaquina comentou com a comadre:

- Pois você não ouviu? O Giramundo pediu segredo! Acertou na loteria!, deve estar rico o danado. Foram treze pontos!
- Aquele matuto bem que podia ajudar a gente, não é? Afinal vizinho é pra essas coisas. Agora que está rico...
- Mas olha que sorte, tem gente que nasce com aquilo virado pra lua.

A conversa foi passando de boca em boca.

- Giramundo agora está rico seu Nadinho, já ficou sabendo? - comentou Trintão.
- E onde estará ele agora?
- Ninguém sabe. Dizem que está na capital, mas pediu segredo. Não quer que ninguém saiba da novidade.
- Esperto ele, não? Escondendo o ouro aquele danado.
- Dizem que chega para a semana, está todo mundo esperando. - respondeu Trintão.

Alguns dias depois, o ônibus encosta na praça. Salta um, salta dois, salta mais, salta Giramundo com um pequeno curativo na cabeça.
Uma pequena multidão o esperava. Alguém fez sinal para o maestro e a banda imediatamente começou a tocar uma marcha.
Palmas explodiram e uma comissão encabeçada pelo prefeito foi recebê-lo ao pé do ônibus.

- Seja bem-vindo Giramundo! Sapicuá emocionada te saúda!, ilustre filho desta terra!
- E é? Mas ...
- Não tem mais nem menos, você é nosso amigo!
- E é?
- É, e a primeira rodada da bebida é por minha conta. - gritou Mané, o dono do boteco.

Giramundo, sem entender nada, só viu quando alguém o colocou nos ombros, sob os aplausos da multidão, que seguiu carregando-o em triunfo, precedida pela banda que seguia na frente marcando o compasso pelo som grave da tuba.


Publicado em : Literatura - Contos, Diversos
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Comentários (2)
Postado em Zingara RJ, em 11-09-2008 09:33, , Membro Registado
:grin  
muito bom o texto! ri muito, parabéns! 
 
beijos no coração...
 
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Postado em Alfhonso, em 16-05-2008 10:29, , Membro Registado
O final é fora de série, parabéns. :grin
 
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