Esta aberta a temporada de caça a talentos, seja um colunista do site Autores.com.br| O mundo tem quatro ruas! |
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- O que foi que você disse?
- Que o mundo tem quatro ruas! - É que você só sabe contar até quatro, seu matuto. - E é? - É. De onde você pensa que vem o ônibus que chega na cidade? - Vem da capital. - Então? Como é que o mundo só tem quatro ruas? - E o que tem mais lá? - Tem prédio, tem hotel, tem gente andando igual a formigueiro. - E é? - É. As ruas tem calçamento e tem banco, onde se guarda o dinheiro. - E tem muito dinheiro? - Tem sim, tem até uma tal de loteria. - Loteria? - É. A gente aposta um dinheiro e pode receber um montão. - E fica rico? - Fica. Dá até pra comprar fazenda, boiada, trator... - Pois intão, eu quero aposta nessa tar de loteria... - Sei, mas vamu descendo desse lajedo que tá na hora. Sapicuá também é nome de cidade, pelo menos naquele sertão onde moravam Trintão e Giramundo. O povoado fica na beira de uma serra, de onde, em cima de uma pedra, os dois amigos conversavam. Mas a descida do morro pode ser tão cansativa quanto a subida. Pisa aqui, pisa ali, escorrega lá, e Giramundo, parando para descansar, observava as aves escuras, que no alto do céu, voavam em círculo aproveitando as correntes de ar que subiam da terra. - É... - Acuma? - perguntou Trintão aproveitando para tomar fôlego. - Urubu é feio, mas pode voar... Já era à tardinha quando se despediram indo cada um para sua casa. Giramundo, no entanto, pegou o rumo de um boteco. - Bote uma ai, Mané, que eu pago depois. - Dá não, viu, fiado só amanhã mesmo. - respondeu o comerciante. Giramundo saiu vexado pela desfeita, e no caminho encontrou com um vereador da cidade. - Seu Nadinho!, a quanto tempo não lhe vejo... - Como vai seu moço? - retribuiu o vereador. - Sabe como é? Eu estava pensando ... - Olha Giramundo, deixa pra outra hora que estou um tantinho apressado. Depois nos falamos viu. Até logo... Giramundo saiu acabrunhado, virou na primeira esquina e pegou o rumo de casa. Não era a primeira vez que passava por uma desfeita daquelas. Não queria beber de graça, não senhor. Iria pagar a cachaça no dia seguinte. Não sou vagabundo, pensou consigo. Tenho ainda um saco de feijão que sobrou da última safra, amanhã vou vender, fazer dinheiro, depois vou pegar a estrada, chegar na capitá e apostar nessa tar de loteria... Um mês depois, a fila do orelhão estava grande, era o único da cidade que funcionava, e quando alguém estava falando a platéia ficava ouvindo. - Então Giramundo? Quando é que você vem? O que? Fale mais alto..., a ligação tá ruim... Não dá pra entender direito... Como? Foram quantos pontos? Na cabeça? Mas não volta sem o dinheiro? Loteria? Olha, não dá pra entender direito não, viu. Aqui tá tudo bem. Mas vê se volta logo. Tá bom, não comento com ninguém. Quando a irmã de Giramundo se afastou, Joaquina comentou com a comadre: - Pois você não ouviu? O Giramundo pediu segredo! Acertou na loteria!, deve estar rico o danado. Foram treze pontos! - Aquele matuto bem que podia ajudar a gente, não é? Afinal vizinho é pra essas coisas. Agora que está rico... - Mas olha que sorte, tem gente que nasce com aquilo virado pra lua. A conversa foi passando de boca em boca. - Giramundo agora está rico seu Nadinho, já ficou sabendo? - comentou Trintão. - E onde estará ele agora? - Ninguém sabe. Dizem que está na capital, mas pediu segredo. Não quer que ninguém saiba da novidade. - Esperto ele, não? Escondendo o ouro aquele danado. - Dizem que chega para a semana, está todo mundo esperando. - respondeu Trintão. Alguns dias depois, o ônibus encosta na praça. Salta um, salta dois, salta mais, salta Giramundo com um pequeno curativo na cabeça. Uma pequena multidão o esperava. Alguém fez sinal para o maestro e a banda imediatamente começou a tocar uma marcha. Palmas explodiram e uma comissão encabeçada pelo prefeito foi recebê-lo ao pé do ônibus. - Seja bem-vindo Giramundo! Sapicuá emocionada te saúda!, ilustre filho desta terra! - E é? Mas ... - Não tem mais nem menos, você é nosso amigo! - E é? - É, e a primeira rodada da bebida é por minha conta. - gritou Mané, o dono do boteco. Giramundo, sem entender nada, só viu quando alguém o colocou nos ombros, sob os aplausos da multidão, que seguiu carregando-o em triunfo, precedida pela banda que seguia na frente marcando o compasso pelo som grave da tuba.
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