| O Retorno |
|
|
|
Agora ela voltava para casa, era uma noite fria e a chuva escorria pelas paredes, pelas casas, e descia as ruas molhando os pés e tornando os caminhos difíceis. Mas ela continuava, seguia com o seu guarda-chuva preto, assim como toda a sua roupa, e pequeno, como era impróprio para aquele momento. Era, enfim, um escudo muito vulnerável para aquela noite.
O que facilitava que o vento tocasse o seu corpo, assoprasse o seu rosto e alcançasse todo aquele desejo que ainda havia em seus lábios, mesmo que estivessem tão frios. Como era fria aquela noite! E ela ia ajeitando as suas malas, eram três, e todas bastante densas. Dentro delas havia muito mais que as suas roupas e pertences já empoeirados. Às vezes parava em alguma esquina, e procurava alguma forma de aliviar o peso que sentia, mas se algum médico de plantão a diagnosticasse naquela noite, lhe diria que naquele instante, durante aquela peregrinação, era irremediável. Um filósofo existencialista, com certeza, lhe diria que ela deveria se perguntar se escolheu aquilo ou não. Talvez ela não respondesse, pois havia tanta poesia em seu corpo, em seus olhos, que seria um desastre tentar se explicar. Ela era alguma forma de arte ainda não definível que tocava, mexia e revirava; não poderia permanecer em momentos contemplativos, serenos e amenos. Chovia muito! Era angustiante, ela precisava encontrar algum abrigo! E assim ela decidiu se instalar por alguns breves instantes de baixo de uma marquise. Cansada como estava, deixou cada mala cair no chão como um pedaço grande de chumbo encontrar o fim da queda, e se sentou encostada a uma parede. Esse foi um movimento bem lento que consistiu em suas costas rangerem no muro enquanto ela descia sentindo a dimensão do atrito. Então, com os braços apoiados pelas pernas, e o rosto apoiado pelos braços, sentiu cada lágrima escorrer quente. Quente como o último abraço que a enlaçou antes de sua partida, como era de costume entre os seus amigos mais próximos, como era intenso com os seus amantes, como parecia ser um alicerce. Como ela sentia tanta falta desse calor naquela noite fria de chuva densa. Contraiu as suas pernas o máximo possível, e os seus braços as apertaram o suficiente para ela sentir que não era o bastante. E doía tanto desejar mais, depois que tanta coisa já havia acontecido, tanta gente que já havia partido, tantas pessoas presentes que eram tão ausentes, tantas tentativas frustradas. E os êxitos, os sucessos, o êxtase... ...Pura sorte! Só poderia ser pura sorte, como alguém poderia explicar tantos contrastes? Como alguma filosofia poderia encontrar algum sentido para isso? Como poderia a vida ter algum sentido? Se passamos o tempo todo negando o inegável, ou pelo menos inevitável? Quem se atreveria a tentar responder?! Em meio a tantas perguntas, quando perguntar "Quem sou eu" já é um clichê, um chavão vazio. Logo, só podemos nos interrogar, e ela o fez. Sim, por um segundo que fosse, ela quis se anular, caminhar num sentido completamente inverso, integralmente diferente de evitar o inevitável. Mas não um ato súbito! Dessa forma não! O principal objetivo seria passar despercebida, seria não ser notada por pessoa alguma, não causar impressão alguma, nem mesmo colidir com desconhecidos. E isso, de uma maneira tão confusa para ela, lhe causou tanta angústia que parecia estar num beco sem saída, num quarto vazio sem porta de saída, sem saída de emergência. E as paredes, todas ao mesmo tempo, se aproximavam do seu corpo, tentavam toca-la a todo custo. O quarto ia ficando cada vez mais pequeno e não havia saída de emergência! Seus braços soltaram suas pernas, suas pernas tremiam, tremiam muito! Seus dedos, os mesmos que já haviam descobertos tantos caminhos em tantas faces, e tantas portas de entrada também, tentavam abrir sua cabeça, coçavam-na, coçavam insistentemente e cada vez mais intensamente. Suas mãos queriam abrir sua caixola para novas idéias? Será?! Talvez?! Mas agora tentavam racha-la e isso era doloroso. E quando a dor se tornou irremediavelmente, inexplicavelmente insuportável, suas mãos tocaram, contemplaram sua face, ela sentiu a própria face e gritou: - Chega! Era toda uma pele, toda uma superfície alcançada por ondas furiosas, que gritava: - Chega! Era toda uma voz, a mesma que já havia cantado, recitado e sussurrado, e que agora se desprendia: - Chega! Ainda em prantos ela permaneceu em silêncio. Nem mesmo a raiva que tanto amargou daqueles que não lhe estenderam a mão no tempo de menina, que não viram o que a menina era capaz de fazer, a mesma menina que havia se tornado a rainha do grito, e aquecia o seu rosto com suas lágrimas, quentes o suficiente para ela saber que não era o bastante. Quentes o suficiente para que ela pegasse as malas e continuasse a seguir sem olhar para trás. Talvez depois ela o fizesse, havia muitas fotos em suas malas, os parentes distantes, sempre tão distantes, chamavam-na de fotogênica, mas aquilo já não importava mais! Foda-se! Era continuar ou desistir! Prosseguir ou se anular, seja subitamente ou lentamente. E era uma cidade tão pequenina, que no meio daquela semana as ruas estavam vazias, os sinais vermelhos já não faziam sentido. E ela avançou em sua caminhada e passou pela antiga escola, pelos portões de entrada e saída, diante dos quais tantos encontros ocorreram, tantos desencontros foram pontos de partida para novos encontros. Enfim, ela estava diante do portão da casa que um dia já habitou, mas que nunca foi sua. Porém, como num passado remoto, servirá de abrigo. Está tão frio e ela toca a campainha, a campainha está quebrada. Então ela solta as malas outra vez e bate palmas, e outra vez mais grita, clama impacientemente, a luz da varanda é acesa. Ele já estava lá, já a esperava como das outras vezes. E tantas vezes ele pensou em seguir outra rota, mas ele ainda estava lá e novamente lhe abriu o portão e recebeu-a com um abraço. E na varanda um abraço ainda mais, e pôde sentir as lágrimas dela, sentiu todo aquele tormento naqueles braços, naquele peito junto ao seu. E com os dedos, que percorriam as costas dela libertando-a de todo aquele peso daquela noite fria de chuva, e com os beijos, que soprou em seus ouvidos permitindo à sua face sentir aquele rosto, apanhou cada lágrima, adentrou as expansões de todas as suas fendas. Aqueceu os lábios com aquele desejo que ainda havia ali, e lembrou-a que era pra ela e só pra ela: - Ele ainda estava lá a lhe abrir portões.
|
Nenhum comentário
| < Anterior | Próximo > |
|---|