Toda vez que se dá algo assim a pergunta me ocorre: O que faço com isto?
Talvez devesse fazer como minha colega de trabalho, a Sra. Filomena e anotar tudo num diário. Dizem as más línguas, e olhe que são muitas por essas bandas, que a dita senhora tem a vida de todos nós, seus vizinhos, fregueses, amigos e afins registradas ao alcance de suas mãos. Algo como o inventário da Dama do Barro Preto.
Basta olhar para o nada e as idéias brotam, ou seria jorram? Ou seriam os deuses do lácio espargindo seu perfume erudito e lúdico tipo Camões No. 04 para este reles, este humilde, simplório, paupérrimo - vamos lá Aurélio, não me faça levantar da cadeira - sim, ia me esquecendo, bonito. Bonito. Claro, como não? Eu acredito nisso. Acredito mesmo que sou bonito, desde que me furte de olhar no espelho. Porque, sempre que isso acontece, eu me pergunto quem é aquele sujeito magérrimo, com duas destacadas olheiras, cabelos ralos, gogó proeminente, e como eu gostaria de poder dizê-lo, fartas bochechas. E eu poderia, se estivesse me referindo ao ilustre doutor magnânimo causídico Efrain dos Prazeres Insepultos Fagundes de Queiroz e Assunção Já Vai Tarde de Malta e Cunha Austraburgus Betonômios Pitanga do Prá e Paminôndas Siqueira das Dores Infinitas, conhecido nos meios forenses como Dr. Coisinhas, um metro e meio de altura, duzentos quilos, roliço, careca, sobrançudo, orelhudo e... dono de fartas bochechas.
Bem que as bochechas do Dr. Coisinhas poderiam ser minhas (rimou!)
Afinal, são elas que recebem todas as manhãs o beijo molhado, inflamado, quente, doce derretido, mel afrodisíaco de Dona Hildamunda Doidativa Pitágoras, por quem, ao cruzar pelas ruas e avenidas de São João do Ribeirão Claro, eu suspiro de prazer e paixão. Por falar nisso, devo lavar minha cueca hoje. Sexta-feira, dia de limpeza. Tomo banho, lavo as roupas, varro a casa, tiro o pó dos móveis, sempre, evidentemente, depois das 5, exatamente a hora do dia em que bato o cartão no cartório onde trabalho como escrevente e por isso mesmo sou conhecido como Isaías "rato de biblioteca", paladar de ácaros.
Bem, se me recordo, estava falando de Dona Filomena Astaxerdes, por quem, durante minhas preces, rogo pelo codinome insuspeito de "Véia Mardita Morra Logo". Mas parece que não ando tendo muito crédito com o Homem lá em cima. Parece-me que para que eu seja atendido pela ilustre fidalguia celeste, em se tratando da Sra. Filomenas Astaxerdes, devo, antes de mais nada e todos os poréns, aumentar substancialmente minhas contas correntes celestiais. O que, segundo meus cálculos pré-elaborados, para obter o volumoso saldo médio necessário ao empreendimento, levará polpudos 10 anos, senão 20, mas, numa bastante e otimista expectativa, ora, está bem, sejamos honestos, 30 anos. Apenas 30. Até lá estarei aposentado da vida humana. Ou pela vontade dos homens ou pela vontade de Deus, e dona, digo Sra. Filomena Astaxerdes já terá derretido seus ossos esqueléticos, sua carne enrugada e sua cínica maldade no eterno fogo brando do inferno, porque o dono do caldeirão daquele pedaço pode ser mal de todo mas, inteligência não lhe falta.
Ah, lembrei finalmente o que me traz a este lugar. Preciso esconder o livro do Marquês masoquista antes que alguém me pegue burlando o expediente. Sou notário. Mas jamais notado. Que pena! Não é mesmo, Dona Hildamunda? Doida!
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