| Vinho de Rosas |
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Suicídios faziam parte da rotina da jovem médica daquele hospital. Não era uma rotina normal e invejável, mas sentia-se satisfeita em salvar vidas emocionalmente destruídas, embora sua vida pessoal fosse um grande fracasso do qual não conseguia se salvar, fazendo-a se sentir impotente diante de seus pacientes. Nem mesmo as doses duplas de seus remédios, acompanhados de qualquer bebida barata traziam-lhe qualquer coisa parecida com "conforto", então preferia perder totalmente a lucidez.
Dirigia-se ao quarto 113 onde mais uma paciente prometia acabar com sua própria vida. Abrindo a porta, deparou-se com uma adolescente sentada em um dos cantos do quarto, sob seu colo, uma arma calibre 38. Percebera que mais uma vez a segurança do hospital foi falha e irritou-se com o fato de sempre ter que consertar o erro dos outros. Sua primeira ação deveria ser retirar a arma daquelas pequenas mãos. Sentou-se ao lado da adolescente, que continuou olhando a parede diante delas. -O que viestes fazer aqui? -Cumprir com meu dever de médica e ajudar-te a se salvar. A paciente riu da médica e a encarou. A médica pode perceber que a adolescente possuía os mesmos olhos daquele que lhe causara todos os problemas que vivia fora daquele hospital. Fitava aqueles olhos quando foi surpreendida pela mão da paciente segurando a sua. -Não consegues salvar-te a ti mesma, como poderia me salvar? -És jovem, tens uma vida inteira para construir... -Não sou do tipo que aproveita a vida. Sou diferente de ti que perdes a lucidez na procura de resolver os problemas. Sabes qual a única coisa que temos em comum? -O que sabes sobre minha vida para falar assim de mim? -Vocês médicos se acham tão espertos, todos com essa mesma conversa de aproveitar a vida. Um blefe. Sabes o que temos em comum? Ambas não suportamos mais a vida, atingimos nosso limite, se passarmos dele há apenas o nada. Ao invés de guardarmos nossas vidas para que elas envelheçam, percam a acidez e se tornem valiosas, nós a bebemos. Tu a bebes aos goles, desperdiça algumas gotas com essas drogas que insistes em acreditar que resolverão alguma coisa, eu encho o copo e bebo tudo de uma vez, assim não sinto minha lucidez indo embora a cada gole e não tenho tempo de pressentir a ressaca. A médica levantou-se, temia o rumo que a conversa tomava e sabia que estava ela tornando-se a paciente. Seus pensamentos foram mais uma vez interrompidos pela fala da adolescente. -Quero rosas vermelhas em meu velório. -Eu não estarei mais aqui em teu velório, já terei morrido por algum problema causado pela minha velhice. -Rosas vermelhas são sangue, por isso as quero. Já percebestes que rosas mortas e sangue coagulado possuem a mesma tonalidade? Quando vivos, ambos são quentes e exalam um cheiro doce, quando mortos são repugnantes, assim como o vinho quando passa do tempo de ser bebido. -Estas ignorando o que te digo? -Sinto tua impaciência de não conseguir tirar-me a arma. - A adolescente colocou-se de pé em frente a médica e a estendeu a arma. - Toma, veja até onde consegues chegar. Quero saber se és capaz de beber o que sobra na garrafa. Quero ver se consegues beber tudo sem cair no chão. Bom que tenhas vindo, não tem graça beber sozinha, não é mesmo? -Não. Pegou a arma, sentia-se satisfeita em conseguir desempenhar tão bem seu trabalho. Esboçou um sorriso, foi quando sentiu sua paciente a abraçando violentamente. Abraçou-a da mesma forma, sentia a paciente como uma parte perdida de si mesma. Primeiro ouviu-se o barulho ensurdecedor do silêncio, depois vieram as lágrimas, depois mais nada. Era apenas um corpo, e uma rosa.
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