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| Águas Eflúvio-Abissais |
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O vulcão estremece, arrota e vomita. Expele fogo, cinzas, lavas e os excessos que seu estômago não comporta. A montanha enraivecida uiva como um lobo em delírios noturnos. Geram-se quesitos de dúvidas e nós outros nos perguntamos: Uivo? Gemido? Um grande tormento? Nós mesmos construímos respostas incertas: Pode estar balbuciando alertas, brandindo comandos ou - quem sabe? - cantarolando o singelo salmo da natureza. Seja qual for o mote deduzido, o vulcão traduz total virilidade com o tom da própria voz. Faz-se ouvir, temer e respeitar. Como fera selvagem, lança, aos quatro cantos, excrementos que demarcam seu território, pondo em fuga todos que nele habitam, impiedosamente.
Como reverso vulcânico, enalteçamos a pia. Inânime, ela engole águas - cristalinas ou opacas, doces ou salobras, sujas ou límpidas - pacificamente. É verdade que às vezes a pia se engasga. Ouvem-se gargarejos reticentes. Surge um quesito de dúvida e nós outros nos perguntamos: A garganta da pia não consegue engolir ou a água resiste em descer? Nós mesmos concluímos resposta: A pia é exata - degusta, apetitosamente, as sobras tanto quanto as mínguas do cotidiano. Destarte, indiferente ao mote afirmado, com feitio de escultura boquiaberta, ela, a pia, permanece, de outono a outono, à espera dos próximos tragos. Conduzam-me à pia do camarim! Foi a penúltima ordem de Perrara III ao séqüito. Majestade! Seria mais cômodo se trouxéssemos ao vosso leito tudo o que se faz necessário, inclusive a água. Aqui estamos para vos dar serventia. Se for verdade o que ouço, cumpram o que lhes ordeno: Conduzam-me à pia do camarim! É impensável que me neguem o tato do líquido corrente! Trêmula, ao elevar água ao rosto, deu-se conta de que nada mais lhe restava da exuberância facial. Sobrava uma caveira coberta de pele rusguenta. A pia não se conteve, traiu seu pacto de silêncio, falou: Com as preciosas torrentes, bebi a ressaca dos vossos cerimoniais festivos, o ruge da vossa maquiagem fulgurante e os traços de um rosto outrora jovial, fogoso e fêmeo. Tudo isso hoje é mesquinho, tal qual a dignidade mal-concedida aos vossos súditos. Perrara III cedeu aos desencantos e balbuciou a última ordem: Levem-me daqui para a agonia final. No átrio dos templos, a pia é suprema testemunha de fervor. "Eu te batizo em nome do Santíssimo!" Proclamam as matriarcais sacerdotisas, em vestes respingadas de credos. Encenam os ritos de lavagem dos crânios, dos cérebros e das almas dos penitentes. No lavatório batismal, a pia se embriaga de águas impregnadas de pecados originais e sentimentos pagãos. No altar de purificação, a pedra entalhada é a matriz de um rio - o rio Jordão. É simbiose de crenças, culturas, tradições (das tribos, das nações, dos povos). Devidamente reparado na intimidade dos lavabos, eis o homo sapiens, pronto para o usufruto do conhecimento! Aferido para tecer a história, investigar a ciência, contabilizar um somatório sem fim. O que nos dizem? O universo possui 300 trilhões de galáxias; o homem tem preparo físico para 165 anos de vida; o colibri bate as assas 80 vezes a cada segundo; 60% da humanidade passam fome. Equações jamais resolvidas, vide as medidas de uma arquitetura sensacional. O vulcão que estremece, arrota e vomita, que expele fogo, cinzas e lavas. A pia que engole águas - cristalinas ou opacas, doces ou salobras, sujas ou límpidas. A montanha que uiva como um lobo em delírios noturnos, que geme seus tormentos, que balbucia alertas e brande comandos. A pia que degusta, apetitosamente, as sobras tanto quanto as mínguas do cotidiano. A fera selvagem que lança, aos quatro cantos, excrementos no demarque do seu território, impiedosamente. A pedra, com feitio de escultura boquiaberta, inânime, de outono a outono, à espera dos próximos tragos, pacificamente. Individualizado nesses dois micro-universos, aqui está este personagem, com o crânio tendente a virar cacos e o cérebro preste a explodir. Recolhido à intimidade da alma, debruço-me sobre todas as pias onde possam enxaguar lágrimas e banhar sorrisos de um mesmo rosto (outrora jovial, fogoso, cobiçado). Despejo-me, inteiramente, em águas eflúvias ou abissais: Escoarei para os esgotos do subumano? Retornarei aos veios da mãe-terra, ascenderei ao vapor da estratosfera? As perguntas não se querem calar: assim já se foram 10 milênios, 949 séculos, 51 anos, 5 meses, 11 dias, 34 minutos, 2 segundos... É só fazer as contas. ________________________________________ [1] Texto integrante do espetáculo teatral "Objetos, Coisas e Mentiras", monólogo encenado pelo ator Humberto Pedrancini, sob direção de Cláudio Ckhinaski, em 2006.
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