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Rua Capadócia Enviar por e-mail
Literatura - Contos - Ficção

Escrito por brunoresenderamos
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Sáb, 04 de Julho de 2009 16:39
Nunca descia à Rua Capadócia. Do alto do morro ela retinia o brilho do sol como um espelho crepitante. A rua se alegrava quando vazia e distribuía seu fulgor refletido nas paredes alvas dos casebres, em sua maioria desocupados no período diurno. Ficavam por ali até o primeiro brilho da manhã e saltavam loucos sobre suas bicicletas todas as criaturas antrópicas do aglomerado da Divina. Corriam atrás dos circulares como se dependessem unicamente daquilo para manterem suas noites mal dormidas. A Rua Capadócia tinha vida própria... Não era uma rua comum. Deitava-lhe o pé desnudo um ser que se alimentava de todo aquele vazio. Como um fantasma respirava as ausências lambendo as frestas das portas... E num colher de néctar ou suores, descobria vezes por outra uma casa em que iria abrigar um novo ente. As fêmeas pariam muitos filhotes com o gene da subserviência. Ali deixava o depósito da sua melhor oferta. Não lhe resistiam o convite que vinha acompanhado do “status” em servir o general. O mestre que deitava sombras nos barracos não se alimentava de sangue, mas precisava de vítimas para alimentar o medo em seus obsequiosos servos e naqueles que questionavam sua hegemonia. O poder exige altares, oferendas, vítimas; enfim, sacrifícios.

Seriam os menores aqueles melhores servidores, cujo cérebro viçoso não teria a mácula do questionamento e abraçariam com fé a nova carreira. Reservados a estes os lugares mais altos. Em suas mãos o poder de fogo, da comunicação iluminada e sonora. Antecipariam, assim, a festa, a guerra, a dor e a vitória. Muitas delas morriam, caiam em êxtase como kamicases sobre seus terreiros, contudo eram celebradas como vencedoras naquela guerra incessante. Por isso nunca descia à Rua Capadócia. Invejava aquelas criaturas cujos pais alimentavam carinhos e certezas ou confiavam-lhes os tetos para armar seus quartéis de brinquedo. Deitava-lhes o sono da certeza e da liberdade. A mim uma intimação proibitiva.

- Não desça a rua Capadócia! Lá, filho meu não desce o pé!
- Mas, pai, os outros podem! O senhor até dá dinheiro para ficarem por lá o dia inteiro. Eu também quero...
- Que quer o quê! Você não sai daqui nem...
- Por que, pai?
- Chega de porquê Absalão!
- Eu também quero brincar de guerra!
- Brinca dentro de casa com seus brinquedos! Não te dei o futebol de botões do time do Romário? Que mais que você quer?
- Quero uma R15 igual a do Binoco...
- Não chega perto dos ferro, garoto! O Binoco já sabe atirar de verdade... Você não!
- Eu não vou ser igual a você quando crescer então...
- Gostei do que ouvi... Hehehehehe... Também não quero que você seja criança como elas são... Ouviu? Senão, ouça com muita atenção! O Binoco vai morrer igual o Toisinho, o Barbitela e o Causuado... Lembra? Aquele que os ômi furou a perna e eu trouxe aqui pro barraco e sacrifiquei nas bala para num fazer muito barulho. A Rua Capadócia ainda não tem dono... Os tira ainda não deixaram a gente se estabelecer por lá... É rua de ninguém, tá me escutando?

Conto a você que a Rua até hoje não é de ninguém. O sacrifício ainda será renovado por muitos anos. No último cortejo, meu pai desfilava nas mãos dos seus vizinhos. Coroa de flores e uma festa particular nas casas das gentes. Outro vai assumir a sua missão. As pessoas voltarão a correr atrás dos circulares. O nosso sangue ficará ainda um tempo nas paredes antes tão alvas. Se ele me tivesse ensinado usar as armas poderíamos estar vivos. O senhor escritor que escreve o “Conto das almas” poderia avisar os homens, não os da polícia, entende? Aqueles que estudam a terra... É que eu tô misturado num monte de ossos... São de índios. Eu não sabia, mas antes de nossas casas, era tudo como uma floresta. Já me falaram que eu não vou ter paz enquanto eu não descer à Rua Capadócia... Por isso morri... E se o senhor puder me ajudar, fale que essa terra é dos índios, que os morros são deles e para os seus mortos... Eu não sou camaiurá... O cemitério no alto deste morro vai ter mais ossos se não houver socorro... Na verdade, eles queriam estar lá embaixo, jogados no rio. Alguém os colocou aqui, dizem serem homens de capa e de cruzes. Disseram-me eles que quando morrem vão às águas... Não estão felizes por aqui. Sei o que eles sentem... Não os culpo. Também não sou daqui... Quero meus brinquedos, meu jogo de botão... Quero descer à Rua Capadócia... Eles também... Todos no mundo têm a sua Capadócia, o lugar aonde descemos em descanso.

Livro: Contos Fantásticos 12

1ªEdição

Página 18

ISBN: 978-85-60489-26-8
Publicado na Antologia de Contos Fantásticos - Volume 12 - Março de 2008



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Rua Capadócia
Sáb, 04 de Julho de 2009

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Última atualização em Dom, 05 de Julho de 2009 13:19
 
Comentários (2)
  • CelyCavalcanti  - Parabéns!!
    avatar
    :lol: Texto brilhante, eu adorei... Sua sensibilidade é luz! Destaquei este fragmento que de repente me fez meditar... “No último cortejo, meu pai desfilava nas mãos dos seus vizinhos.” Você é um escritor repleto de ótimas inspirações... Deus te abençoe. Beijos de paz e poesias. Com apreço, CelyLua, Amiga e fã da sua doce inspiração. Muito obrigada! :kiss: :kiss: :kiss: :kiss: :kiss: :kiss: :kiss: :kiss: No coração :)
  • Luciene_Aguiar
    avatar
    Uma realidade triste descrita de forma brilhante. Um abraço. 5 estrelas.
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