PERSONAGENS:
ALAN
MARÍLIA
GABRIEL
LILIANE
FRED
ANA TELMA
VELHA
PRÓLOGO
(OUVE-SE NO ESCURO RUÍDOS DE PORCOS. LUZ SOBE EM RESISTÊNCIA. ALAN, MARÍLIA, LILIANE, GABRIEL E FRED AO VOLTAREM DA BAIXADA SANTISTA FICARAM NA MÃO, POIS O FIAT 147 QUE OS TRANSPORTAVA FERVEU, E AO PEDIREM CARONA NA ESTRADA, SÃO SOCORRIDOS POR UM MOTORISTA QUE TRANSPORTAVA PORCOS NUM CAMINHÃO. ESTÃO INDECISOS SE ENTRAM OU NÃO NO VEÍCULO)
ALAN - E agora, galera?
MARÍLIA - Nós temos outra saída?
ALAN - Acho que não.
LILIANE - Ai, eu não tenho estômago pra ir com esses porcos nojentos.
FRED - O meu estômago tá revirando com esse cheiro horrível de lavagem. Acho que vou vomitar...
MARÍLIA - Ah gente, deixa de fazer cu doce.
GABRIEL - Mas a gente não precisa ir com eles. É só rebocar o carro no caminhão e a gente vai dentro dele, só curtindo...
ALAN - Boa idéia. Vamos vazar...
GABRIEL - Gente, esse cara tá correndo muito.
FRED - (GRITANDO) Ai, vai bater. (COMEÇA A REZAR) Ave Maria, cheia de graça...
CENA 1
(LUZ SOBE EM RESISTÊNCIA REVELANDO A MATA ATLÂNTICA DA SERRA DO MAR. ALAN, MARÍLIA, FRED, GABRIEL E LILIANE ESTÃO CAÍDOS NO CHÃO, GEMENDO. SE RECOMPÕE AOS POUCOS. GABRIEL SE LEVANTA E OBSERVA OS OUTROS)
LILIANE - (SUSPIRANDO) Tô bem, só um pouco tonta.
GABRIEL - Alan, Marília, Fred?
ALAN - Eu tô legal...
MARÍLIA - Eu também.
GABRIEL - (CAMINHA ATE FRED) Fred? (O RAPAZ NÃO SE MOVE) Fred? (PAUSA) O Fred morreu!
(TODOS SE LEVANTAM, SACODEM A POEIRA, TIRAM AS FOLHAS SECAS DO CORPO E CAMINHAM ATÉ ELE, APAVORADOS)
FRED - (EM TRANSE) ...rogai por nós pecadores, agora e na hora de nossa morte, amém... (ABRE OS OLHOS E SAI DO TRANSE) Que bom que vocês me acompanharam. Eu achei que fosse morrer sozinho.
GABRIEL - Cala a boca, idiota.
FRED - Eu sempre achei que o céu fosse todo branco e não verde, cheio de árvores... Aqui não é o purgatório, é? Não tenho a mínima idéia de como ele seja. Eu não devia ter pulado essa parte quando li "A Divina Comédia" pra escola.
GABRIEL - Você não morreu, idiota. Isso aqui é a Serra do Mar, não o purgatório, besta...
FRED - (LEVANTA-SE E FICA FELIZ) Eu não morri... eu não morri... (PULA DE ALEGRIA) Eu tô vivo... eu tô vivo... Muito obrigado por me deixar viver, Nossa Senhora. Eu tô vivo. Todos nós estamos vivos...
LILIANE - E perdidos.
MARÍLIA - Eu tô com medo.
ALAN - Fica calma. A gente só precisa bolar um jeito de sair daqui o mais rápido possível...
GABRIEL - Você conhece essa trilha?
ALAN - Não. (CAMINHA UM POUCO) Mas sair daqui não vai ser nada fácil.
MARÍLIA - (CHORANDO) Eu quero sair daqui... Eu quero minha casa.
ALAN - (GRITA AO VER O FIAT DESTROÇADO) Não... Não pode ser...
LILIANE - O que foi?
ALAN - Meu carro virou sanfona.
MARÍLIA - Graças a Deus. Foi tarde! Esse lixo só trouxe azar pra gente.
GABRIEL - Não fique triste, mano. Você deve dar graças a Deus de não estarmos dentro dele. O que você preferia, hein? A gente nasceu de novo!
LILIANE - E o caminhão de porcos?
ALAN - Nem sinal dele.
MARÍLIA - Meu coração tá disparado...
LILIANE - E agora, o que a gente faz?
GABRIEL - Acho melhor a gente armar as barracas. Vai que apareça algum bicho... Melhor prevenir do que virar jantar de alguma fera.
MARÍLIA - Vocês ouviram?
GABRIEL - Acho que é algum bicho...
LILIANE - Parece estar machucado.
FRED - (AOS PRANTOS) Nããããããooooo!
TODOS - O que foi?
FRED - Eu devo ter mijado na cruz... O que fiz para merecer isso?
ANA TELMA - (GEMENDO) Ai, benzinho. Acho que torci meu pé. Me ajuda aqui...
GABRIEL - Vai Fred, seja cavalheiro com sua mulher...
FRED - Vai pra puta que o pariu... Eu só vou ajudar ela porque não gosto de ver ninguém sofrendo... Eu estaria sendo desumano com ela.
LILIANE - Ah, Fred, assume logo, vai. Vocês formam um casal bem bonito.
GABRIEL - (COCHICHANDO) Olha, eu já vi gente feia, mas igual à ela nunca.
ALAN - Ela parece ter nascido ao avesso, coitada!
GABRIEL - Acho que nem o Pitangui consegue melhorar a cara dela. Ela teria que nascer de novo.
LILIANE - Mas pro Fred tá muito bom...
FRED - (PARA ANA TELMA) Você tá bem?
ANA TELMA - Acho que sim. Só de ter você do meu lado já me sinto bem... Me abraça?
TODOS - (BATENDO PALMAS) Abraça, abraça, abraça...
FRED - (PARA ELES) Eu odeio vocês.
GABRIEL - Vai Fred, não precisa ficar com vergonha, chega junto. Você não vai fazer uma desfeita dessa, afinal fui eu que idealizei ela pra você. E a minha idéia criou forma...
FRED - Você vai ver... Só porque você tá com essa gostosona da Liliane acha que pode tirar uma da minha cara?
GABRIEL - Mas essa aí também é gostosona. O que estraga é a cara. É só botar uma máscara de qualquer gostosona que resolve o problema.
LILIANE - O que importa é o conteúdo, não a forma.
MARÍLIA - Parem de zoar com ela. Coitada! E olha quem fala em conteúdo. Logo você Liliane, que não tem nenhum...
LILIANE - O que você quer dizer com isso?
MARÍLIA - Isso mesmo que você ouviu. Você, pelo que eu saiba, só tem forma, mas conteúdo nenhum.
LILIANE - Olha aqui, garota, eu não vou permitir que você fique me tirando... Quer partir pra briga?
MARÍLIA - (ENFRENTA-A) Vem pro pau...
GABRIEL - (SEPARANDO AS DUAS) Oh, gente... Paz...
LILIANE - Foi ela quem começou. Eu estava quietinha no meu canto.
MARÍLIA - Mas tava caçoando da infeliz...
FRED - (BERRANDO) Chega!!!!! Eu tô cansado de vocês... Não sei porque fiz a cagada de vir com vocês pra essa droga de viagem. Eu só me fodi o tempo inteiro. Perdi a virgindade com esse ser de outro planeta que agora não pára de me perseguir... Pode existir alguém mais desgraçado do que eu? Eu quero ir embora. (SAI CORRENDO) Nunca mais quero ver nenhum de vocês outra vez...
OS DOIS - Fred, volta aqui. (SAEM)
ANA TELMA - Tchutchuco... Não me deixa.
LILIANE - (TENTA UMA RECONCILIAÇÃO) Marília...
MARÍLIA - Não vem, não, Liliane. Não quero saber de conversa.
LILIANE - Foi mal. Desculpa.
MARÍLIA - Não é pra mim que você tem que pedir desculpa. É pra ela. E desculpa muitas vezes não resolve. Existem coisas que a gente ouve e guarda pra sempre. E isso vai nos corroendo por dentro... (PARA ANA TELMA) Olha, peço desculpas em nome do grupo. Não sei como você pode agüentar tanta gozação e ficar calada. Por quê?
ANA TELMA - Eu já me acostumei. Eu sempre fui o patinho feio da turma. Juro que queria ser bonita como as outras meninas, sabe? Pintava o cabelo para parecer mais sensual, mas usei tanta tinta vagabunda que meu cabelo se transformou nessa palha. E o meu dente é assim porque nunca fui ao dentista. Só de ouvir aquela maquininha zumbindo, me dá arrepios...Todo mundo ri de mim e ninguém me quer por perto.
MARÍLIA - Mas e sua família?
ANA TELMA - Que família? Minha mãe me deixou logo que eu nasci e meu pai era um estivador do porto de Santos, que na primeira oportunidade entrou clandestinamente num navio e foi sei lá pra onde... E me deixou lá jogada no porto. Comi o pão que o diabo amassou lá. Era tratada como escrava... Eu nunca fui feliz. Eu só queria um pouco de amor, entendem?... Poder amar alguém e ser correspondida... E quando conheci meu Tchutchuco, achei que ele seria o homem da minha vida. Mas ele vive fugindo de mim como o Diabo da cruz! Ele tem vergonha de mim, como todo mundo. Ninguém quer sair comigo, porque dizem que eu espanto as pessoas. Eu nunca vou fazer parte de nenhuma turma... (CHORA) Nunca!
MARÍLIA - Não fique assim... Quero que saiba que eu serei sua amiga, e não vou me importar com que os outros pensem ou deixem de pensar a seu respeito.
LILIANE - (EMOCIONADA) Desculpa, tá?
MARÍLIA - (IMPACIENTE) Não vem com essa, Liliane. Você arrebenta com a menina e acha que pedir desculpa resolve?
LILIANE - Eu não fiz por mal. Foi só uma brincadeira.
MARÍLIA - Brincadeira de mal gosto, eu diria.
LILIANE - Por que você tá implicando só comigo. Todo mundo tava zoando com ela. Inclusive o Alan.
MARÍLIA - Porque são uns idiotas.
LILIANE - Eu não devia ter vindo com vocês. Eu e o Gabriel poderíamos ter pego um ônibus em São Vicente. E agora estamos aqui, perdidos nessa Serra, onde não há uma alma pra ajudar a gente e eu vou ter que agüentar desaforo? Maldita a hora eu que fiz as pazes com você...
MARÍLIA - Faço as minhas as suas palavras...
ANA TELMA - (ACALMA OS ÂNIMOS) Ei, sem stress... Vamos parar de brigar? Quem deveria estar chateada era eu, e no entanto, tô aqui na boa, ouvindo vocês brigarem por minha causa. Isso não vai levar a nada. (SILÊNCIO MORTAL) Marília, me dá o seu dedinho. (MARÍLIA DÁ O DEDO MÍNIMO PARA ELA) Liliane, me dá o seu. (LILIANE FAZ O MESMO. ANA TELMA JUNTA OS DEDOS MÍNIMOS DE AMBAS) Agora vocês vão ficar de bem... As crianças não fazem assim? Brigam, brigam e cinco minutos depois não fazem as pazes? (PAUSA) Eu quero fazer um trato com vocês: de agora em diante não quero ver vocês discutindo, até porque nós não sabemos até quando vamos ficar aqui. Precisamos nos unir e buscar uma solução pra sairmos dessa enrascada. Combinado?
MARÍLIA e LILIANE - Combinado. (SE ABRAÇAM)
MARÍLIA - Olha, vamos fazer de tudo para que o Fred se apaixone por você.
ANA TELMA - (PREOCUPADA) Ai, ai, ai. Onde será que ele se meteu?
LILIANE - Pode ficar tranqüila. O Alan e o Gabriel seguiram ele.
MARÍLIA - Espero que não tenham se perdido.
FRED - Vocês não podem me obrigar a fazer o que eu não quero. Me solte, eu quero ir embora.
ALAN - Acorda, cara. A gente tá sem saída...
FRED - Me solta... Me solta... Estúpidos. (COSPE NOS DOIS)
GABRIEL - (PARA ALAN) Deixa comigo. (SEGURA FRED PELOS OMBROS COM AS DUAS MÃOS E CHACOALHA-O COM FORÇA, COMO SE EXORCIZASSE UM DEMÔNIO. FALA BRANDINDO, OLHANDO PARA SEUS OLHOS. NESTE MOMENTO A CENA PODERÁ LEMBRAR UM DESENHO ANIMADO) Fica quieto, fica quieto... Cale a boca, cala a boca... Obedece, obedece... (EM SEGUIDA DÁ TRÊS TAPAS NA CARA DO RAPAZ, QUE FICA PARADO E CALMO) Tá melhor?
FRED - (TRANQÜILÍSSIMO) Agora tô...
ANA TELMA - (ABRAÇA O AMADO) Meu amor, que bom que você voltou... São e salvo...
ALAN - Gente, precisamos pensar numa forma de sair daqui. Já está anoitecendo, o frio está aumentando e não temos água nem comida.
GABRIEL - Mas e o frango com a farofa?
FRED - Já era.
GABRIEL - Mas não sobrou nem uma coxinha, nem uma asinha?
FRED - Nada...
GABRIEL - Danou-se. Estamos fritos
ALAN - Não estamos, não. Agora precisamos fazer o teste de sobrevivência. Amanhã, logo cedo vamos explorar a Mata e procurar comida. Deve ter várias árvores frutíferas por aqui. E também vamos caçar algum animal pra gente se alimentar...
FRED - Só espero não ter que comer lesma nem olho de cabra.
TODOS - Cala a boca, Fred!
MARÍLIA - Precisamos encontrar alguma cachoeira... Sem água não dá pra ficar... Eu tô louca por um banho.
ALAN - Pois é. Mas vamos nos recolher, porque amanhã vamos ter um longo dia pela frente.
FRED - E como vamos dormir se só tem duas barracas?
MARÍLIA - Dorme três em cada barraca... O Fred, a Tchutchuca e o Gabriel numa e eu, o Alan e a Liliane em outra.
FRED - Eu dormir com ela? (APONTA ANA TELMA) Nunca! Prefiro ficar no porta-malas do carro que ainda tá inteiro... É mais seguro. Quero preservar intacta a minha sexualidade. Vamos fazer como em São Vicente: o Alan e a Marília numa barraca, o Gabriel e a Liliane em outra e eu substituo o saco de dormir pelo porta-malas do carro
ANA TELMA - Mas e eu?
FRED - Você fica em pé com os braços abertos como um espantalho...
MARÍLIA - (REPREENDE FRED) Fred?
FRED - É isso mesmo... (VAI EM DIREÇÃO AO CARRO) Bem, vou pros meus aposentos. Boa noite. (SAI)
MARÍLIA - Quem desdenha quer comprar.
ANA TELMA - É isso aí, você ainda vai se rastejar pra sua Tchutchuca.
MARÍLIA - Como é mesmo seu nome?
ANA TELMA - Ana Telma.
MARÍLIA - Vem, Ana Telma, você dorme na barraca com a gente.
ALAN - (COCHICHA PARA MARÍLIA) Não faz isso, gata. Eu não sei o que eu faço se acordo de noite e dou de cara com esse bicho dentro da barraca.
MARÍLIA - Cala a boca...
ANA TELMA - Olha eu não quero atrapalhar vocês...
MARÍLIA - Não vai atrapalhar em nada...
ALAN - (TENTA SE SAFAR) Olha, eu tenho chulé, ronco e peido pra caramba....
ANA TELMA - Não tem problema... Eu também...
GABRIEL - (ZOMBA O AMIGO) Ih, fodeu truta! Vem Liliane!
GABRIEL - Cuidado, Alan. Essa baranga pode fazer com você o que fez com o Fred lá em São Vicente... É melhor colocar o cinto de castidade...Dorme com os anjos, mano! E cuidado com o bicho!
CENA 2
(LUZ VOLTA DEVAGAR. AMANHECE OUVE-SE NO ÁUDIO RUÍDOS DE PÁSSAROS. ANA TELMA SAI DA BARRACA, FAZ UNS ALONGAMENTOS NADA CONVENCIONAIS, SURREALISTAS, E CAMINHA ATÉ O PORTA-MALAS DO CARRO COM UMA GRANDE DOSE DE SENSUALIDADE. ABRE O PORTA-MALAS. FRED ESTÁ CHUPANDO O DEDO E TUDO LEVA A CRER QUE ESTÁ TENDO UM SONHO ERÓTICO. A GAROTA DELICADAMENTE, O ACORDA)
FRED - (SONÂMBULO, ABRAÇA ANA TELMA, QUE DEITA COM ELE) Vem cá, meu amor. Me beija. Quero sentir esses seus lábios carnudos e esse seu hálito de cereja. (ANA TELMA BEIJA FRED, QUE ACORDA E AO OLHAR A GAROTA, TEM UM SOBRESSALTO) O que é isso? Sai daqui, sai... (SAI DO PORTA-MALAS)
ANA TELMA - Foi você quem me puxou, delícia... Eu só fiz o que você pediu... E como você beija bem, gatão! Meus lábios estão formigando... Tô toda arrepiada. Agora vai ter que dar conta do recado.
FRED - (TEM UMA IDÉIA) Olha, eu preciso te confessar uma coisa: eu jogo em outro time.
ANA TELMA - O quê?
FRED - Eu gosto do que você gosta. Dou ré no quiabo.
ANA TELMA - Como?
FRED - Eu sou gay.
ANA TELMA - Conta outra. Ontem você não era.
FRED - Mas hoje sou. Hoje eu descobri minha verdadeira identidade. Meu negócio é homem, bofe, ocó. E se você tentar qualquer coisa comigo de novo eu não respondo por mim. Eu tiro meu sapato e lhe bato com o salto na testa. (PEGA UMA FLOR DO CHÃO E COLOCA ATRÁS DA ORELHA E SOLTA A FRANGA) Eu sou gay...O mundo é gay...
ANA TELMA - Não me decepciona, amor meu. Não faz isso comigo.
FRED - Já fiz... E olha, vamos deixar de conversa e acordar os outros. Temos que sair atrás de comida e de água, Meu estômago está nas costas. E lembre-se: se você tentar qualquer coisa comigo... (PÕE O DEDO INDICADOR NA BOCA E EM SEGUIDA TOCA NA TESTA DA GAROTA) eu te afogo!
FRED - Vamos acordar! Ao trabalho, pessoal!
GABRIEL - Pô Fred. Você é uma mala!
FRED - Como vai, meu gatão? (BEIJA GABRIEL E CAMINHA PARA ALAN, ANASALANDO A VOZ) E aí bofe, dormiu bem? Ai, eu fico louca quando vejo esses seus olhos e esses seus cachinhos. É super fashion... (BEIJA ALAN)
ALAN - O que é isso, Fred? Virou boiola?
FRED - Pois é. Saí do armário... Fiquei louca!!!
ANA TELMA - Nada dá certo pra mim...
GABRIEL - (SACANDO) Ah, saquei... (RI) Boa jogada, Fred.
ALAN - Bem gente, ao trabalho.
LILIANE - Vamos formar dois grupos de três e vasculhar a mata.
ALAN - Acho perigoso dividir o grupo. A gente não sabe o que pode encontrar pela frente. Vamos ficar todos juntos. É mais seguro.
MARÍLIA - Eu também acho.
GABRIEL - Vou pegar o facão.
MARÍLIA - Aproveita e pega também as garrafas de refrigerante pra gente encher de água. (GABRIEL SAI)
FRED - (TIRA UM ESTILINGUE DO BOLSO) Eu vou armado com esse estilingue.
LILIANE - Por quê?
FRED - Pra matar algum animal selvagem que queira nos atacar.
TODOS - Cala a boca, Fred.
GABRIEL - Pronto, tá tudo aqui.
ALAN - (PEGA UMA BÚSSOLA) Essa bússola nos servirá de guia. Bem, ao trabalho!!!
TODOS - Um por todos e todos por um...
CENA 3
(O PALCO FICA VAZIO POR ALGUNS INSTANTES. MÚSICA. ENTRA EM CENA UMA VELHA MISTERIOSA. SEU ROSTO É COBERTO POR RUGAS, LONGOS CABELOS DESGRENHADOS BRANCOS. PARECE QUE ESSE CABELO NUNCA VIU UMA TESOURA. É UMA FIGURA QUASE PRÉ-HISTÓRICA. SEU ANDAR SE ASSEMELHA COM OS DOS MACACOS. SUGIRO AO ENCENADOR PEGAR A TABELA DA EVOLUÇÃO DAS ESPÉCIES, DE CHARLES DARWIN E ESCOLHER A POSIÇÃO QUE FIQUE MAIS INTERESSANTE PARA SER USADA TEATRALMENTE. A VELHA VASCULHA OS OBJETOS DE CENA, SEM EMITIR NENHUM SOM. NÃO ENCONTRA NADA DO QUE PROCURA E VAI SE SENTAR EM POSIÇÃO DE "IOGUE", NUM CANTO AFASTADO DO PALCO, LEMBRANDO A POSTURA DE UM DOS MACACOS ORIENTAIS: O QUE NÃO FALA. PERMANECE ASSIM POR MUITO TEMPO)
(OS JOVENS APARECEM TODOS SUJOS E SUADOS, CARREGANDO NAS MÃOS AS VASILHAS DE REFRIGERANTES CHEIAS DE ÁGUA, CACHOS DE BANANAS E/OU OUTRAS FRUTAS QUAISQUER QUE POSSA SER ENCONTRADAS EM ÁRVORES DA MATA ATLÂNTICA, E ALGUMAS ACHAS DE LENHA. ALAN TRAZ NAS MÃOS ALGUM ANIMAL MORTO EMBRULHADO NUMA FOLHA DE BANANEIRA. PODE SER UMA ANTA, UMA CAPIVARA, NÃO SEI DIREITO QUAIS ANIMAIS VIVEM NESSA REGIÃO. COLOCAM TODO O MATERIAL COLETADO NO CENTRO. ALAN TIRA AS TRIPAS DO ANIMAL, ACENDE UMA FOGUEIRINHA E O PÕE PARA ASSAR)
GABRIEL - Não foi uma tarefa fácil conseguir isso.
FRED - (PEGA DUAS BANANAS, DESCASCA E COME UMA SEGUIDA DA OUTRA) Essa banana tá deliciosa. Acho que vou comer o cacho inteiro.
ALAN - Nem pensar. A gente vai dividir tudo em partes iguais. Todo mundo vai comer a mesma quantidade do que o outro.
FRED - Tá certo. Fico aliviado de saber que não vou precisar comer lesma nem olho de cabra.
ANA TELMA - (COMEÇA A SENTIR ENJÔO) Ai... Eu tô enjoada.
LILIANE - É por causa da fome. Agüente um pouco...
ANA TELMA - Tá tudo girando... Acho que vou desmaiar. (DESMAIA)
ALAN - (CORRE SOCORRER A MENINA) Ana Telma! Ana Telma!
ANA TELMA - (RECOBRA OS SENTIDOS) Ai...
MARÍLIA - Tá melhor? Come uma banana... (ANA TELMA COME A BANANA)
ANA TELMA - Tô. Obrigada.
MARÍLIA - Você tá tremendo...
LILIANE - Ela tá muito fraca!
FRED - (SEM SE IMPORTAR) Ai, deixa essa amapô trash pra lá.
ALAN - Pô Fred, seja mais humano...
ANA TELMA - Deixa Alan. Não quero ver ninguém mais brigando por mim. Eu preciso descansar um pouco. Posso ficar lá na sua barraca, Marília?
MARÍLIA - Claro. Vem que eu te ajudo! (LEVA ANA TELMA ATÉ A BARRACA E VOLTA PARA O GRUPO) Tô preocupada com ela. Ela tá muito fraca!
ALAN - Vem comer, Marília.
GABRIEL - Mas você hein, Fred?
FRED - O que é que tem?
GABRIEL - Ficar fingindo que é boiola só pra escapar dela.
FRED - E eu tive escolha? Meu, essa menina é tarada. Se der moleza ela ataca. Por pouco não fui violentado por ela de novo. Ainda bem que acordei a tempo de escapar das suas garras.
ALAN - Fred, numa boa, vocês usaram camisinha?
FRED - Não. Ela pulou em cima de mim feito louca. Achei que fosse quebrar meu pinto. Ainda bem que tive ejaculação precoce. Foi uma trepada de coelho... E eu espero que ela não tenha nenhuma doença venérea. Só faltava eu pegar AIDS dela logo na minha primeira e lastimável violação sexual.
MARÍLIA - Esses enjôos dela pode ser um aviso...
FRED - Como?
GABRIEL - Já parou pra pensar que você possa ter engravidado a Ana Telma, Fred?
FRED - Deus não seria tão cruel comigo.
ALAN - É uma hipótese plausível...
LILIANE - É possível.
FRED - Não, não, não!!!
VELHA - AAAAAAAAAAAAAAAAAiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!!!!!!!!!!!!
MARÍLIA - O que foi isso?
GABRIEL - Meu Deus. Não bastava uma. Agora temos duas criaturas bizarras no mesmo ambiente?
VELHA -AAAAAAAAAAAAAAAAAAiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!!!! (REVOLTADA, PARA FRED) Desgraçado, você me fez quebrar o meu voto de silêncio!!
FRED - Como?
VELHA - Há mais de vinte anos eu tô calada, sem emitir nenhum som, nenhum ruído e agora você me acerta essa pedra nos pés? AAAAAAAAAAiiiiiiiiiiiiiiii! (COMEÇA A SE EMPOLGAR AO SE OUVIR) Eu estou falando, falando, falando... Há mais de vinte anos eu mantive as palavras dentro de mim e agora sinto um desejo louco de libertá-las. O mameluco melancólico meditava e a megera megalocéfala macabra e maquiavélica masticava mostarda na maloca miasmática migalhas minguadas de moagem mitigavam míseras meninas moleques magricelas mergulhavam no mucurro murmurando como uma matinada de macacos três pratos de trigo para três tigres um tigre dois tigres três tigres como quiabo cru como quiabo cru como quiabo cru como quiabo cru o peito do pé do padre Pedro é preto quando eu estou aqui eu vivo esse momento lindo olhando pra você e as mesmas emoções sentindo eu vi na tv uma atriz fazendo amor ela olhava o ator como eu olho você com cara de quem está no céu é proibido fumar diz o aviso que eu li vai lacraia vai lacraia tô mandando um beijinho pra filhinha e pra vovó só não posso esquecer da minha éguinha pocotó pocotó pocotó pocotó pocotó quando a luz dos olhos teus e a luz dos olhos meus resolvem se encontrar ai que bom que isso é meu Deus que frio que me dá o encontro desse olhar entardeceu ai que vontade de brincar de pega-pega de macaca de comer goiaba de trepar no muro se a ran becucanie ninqüencos se a ran becucanie niqüencos mudos nascemos mudos um dia estaremos mas nesse intervalo nos dedicamos a falar fala-se tanto que sem nos darmos conta passamos a maior parte do tempo falando fala-se pelos ouvidos e pelos cotovelos.
TODOS - Cala a boca!
VELHA - Não. Vocês me fizeram quebrar o meu voto de silêncio, invadiram a minha mata e agora querem que eu fique quieta? (VOLTA A FALAR COMPULSIVAMENTE) Boi touro rã macaco arara rinoceronte cachorro gato galinha pato porco hipopótamo rato tava a velha em seu lugar veIo uma mosca lhe fazer mal a mosca na velha e a velha a fiar tava a mosca em seu lugar veio a aranha lhe fazer mal a aranha na mosca a mosca na velha e a velha a fiar tava a aranha em seu lugar veio um rato lhe fazer mal o rato na aranha a aranha na mosca a mosca na velha e a velha a fiar... (CONTINUA CANTANDO MAIS BAIXO)
MARÍLIA - Pelo amor de Deus, Alan, amordace a boca dessa velha. Ela não vai parar de falar pelos próximos 50 anos.
ALAN - (PEGA UMA MORDAÇA E PÕE NA BOCA DA VELHA QUE CONTINUA CANTANDO "A VELHA A FIAR") É fala recolhida, ela precisa liberar.
LILIANE - Haja saco!
GABRIEL - E tudo por sua culpa, Fred.
FRED - Minha culpa? Agora eu sou o culpado de tudo? Não tenho culpa se esse ser pré-histórico fez voto de silêncio... Eu tô preocupado comigo e com o meu futuro... Deus, não me castigue. Oh, Pai, porque me abandonaste? Já sofri o bastante. Poderei suportar mais ainda?
MARÍLIA - É demais pra minha cabeça. Acho que paguei todos os meus pecados da encarnação passada, desta daqui e da que virá...
LILIANE - Droga! Era bom demais pra ser verdade!
ALAN - É uma esperança. Eles podem estar nos procurando. Com certeza já souberam do acidente. O que nos resta é esperar pelo resgate.
CENA 5
(TODOS CONTINUAM NA MESMA POSIÇÃO DA CENA ANTERIOR. A VELHA VAI PARANDO DE CANTAR E FICA EM SILÊNCIO. ESTÁ OFEGANTE)
ALAN - Será que ela pode nos mostrar a saída?
GABRIEL - É possível! Afinal ela vive aqui.
ALAN - Eu vou tirar a mordaça dela. (FAZ O QUE DIZ. TODOS CAMINHAM ATÉ ELA) Ei senhora, poderia nos mostrar o caminho que leva à estrada?
VELHA - Poder eu posso. (TODOS SE ALEGRAM) Mas da minha boca não ouvirão nada! (TODOS SE ENTRISTECEM) Nem uma frase, nem uma palavra, nem uma letra!
FRED - Mas por quê?
VELHA - Porque você seu idiota, me fez quebrar o meu juramento!
FRED - Eu? Eu ia adivinhar que você tava lá, camuflada, parecendo uma sapa velha no tronco da árvore?
MARÍLIA - Peraí... Que juramento, senhora?
VELHA - Meu voto de silêncio... Eu prometi que nunca mais iria abrir a minha boca, que ia ficar enterrada o resto da minha vida aqui nesta mata, por um crime que cometi.
GABRIEL - E o que a senhora fez? Que crime cometeu?
VELHA - O pior crime que alguém pode cometer... Eu sou um monstro... (COMEÇA A CHORAR)
LILIANE - E que crime foi esse?
VELHA - (SOLUÇANDO) Eu... não consigo... durante vinte e dois anos estou com a consciência pesada... Nunca mais dormi desde aquele maldito dia... pareço estar com cem anos...
FRED - Duzentos, no mínimo...
TODOS - Cala a boca, Fred.
MARÍLIA - Desabafe com a gente... Isso vai te fazer bem...
VELHA - Ela era pequena... tinha acabado de nascer... uma criança raquítica, frágil... Minha família não aceitava a minha gravidez, queriam que eu abortasse... Eram contra o meu casamento. Meu marido era pobre. Trabalhava como estivador no porto de Santos. E logo que a criança nasceu, eu abandonei esse ser e fugi de tudo e de todos. Não podia voltar pra casa, não tinha condições de criar o bebê. Deixei ela lá no hospital... era uma menininha... nem vi direito o seu rosto, e fugi de lá, deixando pra trás o meu passado, o meu marido e minha filha. Eu queria morrer. Mas como isso não aconteceu, fiz um juramento: eu iria ficar calada até o fim dos meus dias... Vim pra cá, fiz minha cabaninha e vivi durante esses anos todos comendo raízes e bananas... (SE ALTERA) E no momento em que estava em êxtase, limpando meu espírito da podridão, me vem esse desgraçado (PARA FRED) e me acerta uma pedra nos pés?
MARÍLIA - Você está pensando o que eu estou pensando, Liliane?
LILIANE - Sim. E você, está pensando o que eu estou pensando, Marília?
MARÍLIA - Sim.
AS DUAS - (NUM ROMPANTE) A gente sabe onde está sua filha!
MENINOS - O quê?
VELHA - Como?
MARÍLIA - Sua filha está bem próxima da senhora. O que ela nos contou bate com tudo o que a senhora disse. Ela foi abandonada logo que nasceu e seu pai era um estivador do porto de Santos. Tudo se encaixa perfeitamente.
ALAN - Mas de quem você está falando, Marília?
MARÍLIA - Da Ana Telma.
GABRIEL - (SURPRESO) A Ana Telma?
LILIANE - Olhando bem, vocês são bem parecidas...
VELHA - E onde ela está?
MARÍLIA - Na barraca descansando... Ela não tava passando bem...
GABRIEL - Gravidez é assim mesmo.
VELHA - O quê? Minha filha, grávida?
GABRIEL - Pois é. O bebê foi concebido ontem...
FRED - Não pode ser... não pode ser...
LILIANE - É só uma suposição...
GABRIEL - E esse aqui é o autor... Seu genro.
VELHA - (PARA FRED) Que Deus o abençoe. Eu quero que você seja muito feliz com minha filha...
GABRIEL - Aí Fred. Já ganhou a bênção da sogrinha... agora é tarde...
FRED - Eu te odeio!
MARÍLIA - Eu vou chamar a Ana Telma... (CAMINHA ATÉ A BARRACA) Eu tenho uma surpresa pra você, Ana Telma.
ANA TELMA - (SAINDO DA BARRACA) O que é?
MARÍLIA - Vem aqui...
VELHA - (ESTENDENDO OS BRAÇOS) Filhinha!!!
ANA TELMA - (IDEM) Mamãe!!!
VELHA - Como eu sonhei com esse momento...
ANA TELMA - Eu também...
GABRIEL - (QUEBRA O GELO) Tá bom... Isso aqui não é o Programa do Gugu!
ALAN - Bem, agora que resolvemos o problema da senhora, precisamos ir embora. Agora a senhora vai nos mostrar a saída?
VELHA - Com uma condição...
ALAN - Qual?
VELHA - (PARA FRED) Que eu vá morar com vocês.
FRED - Mas a gente nem está junto... Era tudo brincadeira deles, dona. Esse lance de gravidez não é verdade!
VELHA - É verdade, sim. Coração de mãe não se engana. Minha filha está grávida e você é o pai.
FRED - (APAVORADO, TENTA SAIR) Eu quero sair daqui...
VELHA - Vai sair daqui direto pra Igreja. Desonrou minha filha, agora vai assumir o que fez... vai se casar com ela e vai criar o filho de vocês... Eu só mostro o caminho de volta se você fizer isso.
FRED - Prefiro a morte. Ou melhor: vou também fazer um juramento. A partir de agora farei um voto de silêncio e ficarei mudo e enclausurado nesta mata até o fim dos meus dias.
VELHA - Deixa de fita. Vou fazer o casamento de vocês (AGE COMO PADRE) Ana Telma, aceita... (NÃO SABE O NOME DO RAPAZ E PEDE AUXÍLIO A GABRIEL)
GABRIEL - Frederico...
FRED- Eu te mato!
VELHA -.... Frederico como seu legítimo esposo?
ANA TELMA - (SORRI) Aceito.
VELHA - Frederico, aceita Ana Telma como sua legítima esposa? (SILÊNCIO MORTAL. A VELHA REPETE A PERGUNTA MAIS DUAS VEZES) Diz: aceito.
FRED - Não tem outra alternativa?
VELHA - Não...
FRED - (A CONTRA-GOSTO) Tá. Fazer o que. Aceito, né?...
VELHA - Eu vos declaro marido e mulher... Podem se beijar. (FRED NÃO SE MOVE. ANA TELMA FICA MOVIMENTANDO A BOCA. A VELHA REPETE A PERGUNTA MAIS DUAS VEZES) Beija logo!
ALAN - Agora a senhora pode nos mostrar o caminho?
VELHA - Agora sim. Venham comigo...
CENA 6
(ESTRADA. TODOS APARECEM, EXCETO A VELHA. ESTÃO DESANIMADOS)
ALAN - Só que desta vez, não temos mais o carro...
GABRIEL - Pois é. Vamos ter que pedir mais uma carona!
FRED - Na ida fomos com caminhão de galinhas. Na tentativa de volta com um caminhão de porcos e agora, vamos como?
VELHA - Foi tudo o que consegui...
EPÍLOGO
(ESPAÇO NEUTRO. UMA ESPÉCIE DE SALA DE ESPERA DE HOSPITAL. FRED FUMA UM CHARUTO OU CIGARRO. POR NÃO SABER FUMAR, TOSSE AO SE AFOGAR COM A FUMAÇA. ANDA DE UM LADO PARA O OUTRO, IMPACIENTE. GABRIEL, LILIANE, MARÍLIA E FRED SENTADOS, AGUARDANDO)
(ENTRA A VELHA)
FRED - E aí? Nasceu?
VELHA - Nasceu...
FRED - E o que é? Menino ou menina?
VELHA - E impossível saber...
FRED- Como assim?
FRED - Posso ver meu filho?
ANA TELMA - Claro, amor.
FRED - É meu filho! É meu filho!
FIM
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