JOSEFA, apresentadora de telejornal grávida, mulher de
JACINTO, apresentador do telejornal, alcoólatra
ROSEMEIRE, repórter do telejornal, metida à modelo
BETE BOQUETE, prostituta
CASTANHOLA, mendigo
QUEBRA-NOZES, mendigo
PROFETA, a serviço de Deus
ANÃO, bem-dotado
ÉPOCA: Atual. Véspera de Natal.
CENÁRIO: Um lixão. Trata-se de uma cidade chamada Bufonaria, pequeno município entre São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, cidade fictícia. Em meio a esse lixão, há um estúdio onde se passam um telejornal e os comerciais. Também se encontram neste ambiente, o Terminal Suburbano Jean Solto por Enquanto e o Auditório Bufanesco. Nas últimas cenas, forma-se um presépio em meio a sujeira.
(OS BUFÕES ESTÃO NO PALCO DANDO OS ÚLTIMOS RETOQUES NA MAQUIAGEM, NOS FIGURINOS E NAS EXTENSÕES. AO TOQUE DO TERCEIRO SINAL, OS BUFÕES CAMINHAM PARA SEU CANTO E CONGELAM. UMA ATRIZ, QUE INTERPRETA O PROFETA, SE APROXIMA DO CENTRO E INICIA O "MANIFESTO DOS BUFÕES", DE JORGE DIDACO)
(A ATRIZ COLOCA SUA EXTENSÃO E OS BUFÕES SAEM DOS SEUS LUGARES, DESFILANDO CADA UM DE SUA MANEIRA. SENTEM-SE AS CRIATURAS MAIS BONITAS DO MUNDO. UM A UM SE APROXIMA DO CENTRO DO PALCO, E FAZ A SUA APRESENTAÇÃO. QUANDO TODOS SE APRESENTAREM, UM BUFÃO BERRA)
(TODOS OS BUFÕES GRITAM, FELIZES E ENTRAM NO ÔNIBUS. O ÔNIBUS FICA LOTADO E AS PESSOAS ESPREMIDAS LÁ DENTRO DEMONSTRAM UMA GRANDE SATISFAÇÃO ATRAVÉS DO SORRISO BANGUELA)
JACINTO - Boa noite. Sou Jacinto Preto.
JOSEFA - Boa noite. Sou Josefa Pinto do Rêgo Preto..
JACINTO - E agora as notícias do dia no Telejornal do Bufão... Nossa repórter Rosemeire está no Terminal Suburbano Jean Solto Por Enquanto, na Avenida Newton da Farmácia, avenida esta que futuramente irá mudar de nome para Juvenar, Juvenar Vem Tirar o Leite, não é a música do Karnak, não. Vai se chamar assim, porque o Juvenar, Juvenar Vem tirar o Leite só tem um braço, e a marginal, tem mão única... (RI, HISTÉRICAMENTE) É com você, Rosemeire...
ROSEMEIRE - Estamos aqui, no Terminal Suburbano Jean Solto Por Enquanto, onde está havendo uma agitação tremenda, pois o ônibus está circulando de graça... O povo aproveita a ocasião para fazer um "tour" pela cidade, visitando todos os bairros. Muita gente deixou de trabalhar hoje, para passar o dia passeando de ônibus... Vou entrevistar agora a Bete Boquete, essa puta cidadã que está do meu lado... Oi Bete, o que você acha disso?
BETE - Eu acho ótimo... Como sou puta da Praça do Canhão, não preciso gastar nada... Vou lá, faço meu programinha, pego o ônibus de graça e ainda sobra um dinheirinho pra eu tomar meu coquetel... Não é coquetel de frutas, não. É o coquetel para a AIDS.
ROSEMEIRE - Quer deixar um recado para os telespectadores? Dar telefone, e-mail, RG, CPF, Carteira de Habilitação, Número da Conta Corrente...
BETE - Claro. Meu telefone é 6969-6969, e o meu e-mail é Este endereço de e-mail está protegido contra SpamBots. Você precisa ter o JavaScript habilitado para vê-lo. , me mandem e-mail, ou me liguem, viu? Comigo, não tem frescura, eu faço de tudo. Me alugo, me dou, me vendo, deixo que me algemem na cama, pinguem vela, raspem minha xoxota com navalha, o que quiserem fazer, menos enfiar crucifixo no cu, que aí é pecado... Agora, os preços: Programinha básico, que é um boquete, R$ 10,00. Programa completo, varia, se for só pra dar a buceta por uma hora, é R$ 50,00. Se tiver que dar o cu, é R$ 100,00, porque dói muito, e se for pra ficar a noite inteira com o bofe, é R$ 150,00, porque vou sair muito ardida... Aceito todos os tipos de cartão de crédito ou débito, inclusive ticket refeição e vale transporte. Mas se eu simpatizar com o freguês eu não cobro nada...
ROSEMEIRE - É isso aí... É com você, Jacinto...
(VOLTA PARA JACINTO E JOSEFA)
JOSEFA - Teatro Bufanesco...
JACINTO - Auditório..
JOSEFA - Auditório é coisa do programa do Sílvio Santos...
JACINTO - Não discuta...
JOSEFA - Auditório Bufanesco é entregue reformado e foi reinaugurado recentemente...
JACINTO- O Teatro, ou melhor, Auditório, passou por uma grande reforma: aumentaram o palco, fizeram novos camarins, trocaram a fiação, que na última apresentação que teve, pegou fogo e fez churrasco dos técnicos, puseram um telhado de eternit em cima do telhado de folha de zinco, que quando chovia fazia um grande barulho... Mas que porra de arquiteto é esse que projeta um Teatro, quer dizer, Auditório com teto de folha de zinco?... No ano passado, durante a estréia da peça "A Cantora Rouca", desta mesma Companhia, caiu um toró do caralho prejudicando a peça, além de outros eventos, onde o público era sempre atingido por goteiras colossais... Não só o público, mas os artistas... Imaginem que durante a apresentação da Orquestra Bufônica, uma enorme cascata caía bem dentro da tuba de um músico. Pasmem!... Rosemeire foi conferir o evento...
ROSEMEIRE - Estamos aqui no coquetel de inauguração do Teatro...
JACINTO - Auditório...
ROSEMEIRE - Desculpa... do Auditório Bufanesco ... (SE APROXIMA DE UMA MESA, ONDE TODOS OS BUFÕES ESTÃO EM TORNO DELA, DEVORANDO AS TORRADAS, O VINHO E O REFRIGERANTE) O público, ao que parece, não jantou antes de vir pra cá... Vou entrevistar esse sujeito...
ROSEMEIRE - Meu senhor... qual a sua opinião sobre o espetáculo que acabou de assistir?
CASTANHOLA -(APÓS ENGOLIR A TORRADA) Eu achei ótimo...
ROSEMEIRE- Por quê?
CASTANHOLA- Eu sei lá. Não vim aqui por causa do teatrinho, não.. Pra falar a verdade eu não gosto de teatrinho...Vim aqui pra comer... Sempre que tem alguma coisa, algum coquetel, boca livre, eu venho... Eu passo muita fome, fico sem comer o dia inteiro, e quando tem esse tipo de coisa, tem que aproveitar, comer bastante até estourar... Isso aqui tá uma delícia.. (ARROTA).
ROSEMEIRE - Bem, é com você, Jacinto... Agora é minha vez de aproveitar o coquetel e fazer uma boquete, quer dizer, uma boquinha...
JACINTO - E agora as notícias do dia no Telejornal do Bufão... Nossa repórter Rosemeire está no Auditório Bufanesco... Tira essa porra daí... Já li essa merda... Ah... Alegria de pobre dura pouco. Os ônibus voltaram a circular sem os cobradores... É um absurdo. Mandaram mais de 150 cobradores embora para instalarem catraca eletrônica e bilhete unitário, como os de metrô... Querem imitar Sum Paulo... Lá, o preço da passagem de ônibus é mais barato: por um preço bem baixo, você atravessa a cidade. Aqui, não... Para vir da Vila dos Bufões para o Terminal, que não dá três minutos a pé, o povo tem que pagar R$ 1,60... E se vai para a cidade vizinha, mais R$ 1,75... É só fazer as contas: R$ 1,60 mais R$ 1,75, dá R$ 7,50... Um roubo... Têm que mandar esses filhos da puta tomarem no cu, seus lazarentos... Vão pra puta que o pariu. Um dia vou jogar uma bomba nessa bosta de Terminal.
JOSEFA - Calma, Jacinto...E aqui vai a relação dos postos de venda dos bilhetes unitários dos ônibus - essas bostas da São Tonhão...
UM DE CADA VEZ - Armazém do Felisberto, Caldo de Cana do Tenório, Puteiro da Madame Clessi, Hotel Lancaster, Igreja Universal, Armarinhos da Judith, Bar da Chitú...
JOSEFA - Vamos agora para os nossos comerciais...
CASTANHOLA - Olá, Quebra-Nozes...
QUEBRA-NOZES - Olá, Castanhola...
CASTANHOLA - Você já bebeu o Leite Vida Longa, Longa Vida extraído da teta da vaca da Fazenda do Juvenar, Juvenar Vem tirar o Leite?
QUEBRA-NOZES - Não, e é bom?
CASTANHOLA - Muito bom. Nunca mais vou precisar mamar no peito da sua mãe.
(E EM SEGUIDA, CANTAM "FILHO MAMADOR", DE CAJU E CASTANHA.)
AMBOS - (Refrão)
Eu já mamei no peito da tua mãe.
Eu sou o filho que mamou na sua mãe
A minha mãe era muito magricela
Não tinha leite pra ela
Pra poder me alimentar...
Quando eu nasci a minha mãe ficou doente
E não sabia como iria me tratar
Não tinha leite, não tinha o que comer
Pra me sobreviver eu tive até que me virar
(Refrão)
Na minha casa, quando eu era pequeno
Era cinco barrigudinho tentando sobreviver
Tinha João, Pedro, Paulo e Manuela
Fora mãe, tinha a Estela e eu
Chorando pra comer
(Refrão)
(QUANDO A MÚSICA ABAIXA, FAZEM UM APELO SOBRE OS RETIRANTES NORDESTINOS. FINALIZAM COM UM TRECHO DE "MORTE E VIDA SEVERINA", DE JOÃO CABRAL DE MELO NETO)
Com palmos medida,
É a cota menor
que tiraste em vida
Não é cova grande
É cova medida,
É a terra que querias
Ver dividida
É uma cova grande
Para tua carne pouca
Mas a terra dada
Não se abre a boca
CENA 3
JACINTO - (BEBE A CACHAÇA) E agora as notícias do dia no Telejornal do Bufão... Nossa repórter Rosemeire está no Terminal Suburbano Jen Solto Por Enquanto, na Avenida Newton da Farmácia... Ô buceta, isso já li...(PÕE A MÃO NO PONTO) O quê, diretor? Ah... (PARA JOSEFA) Leia sobre os postos de venda do bilhete unitário...
AMBOS - Pastelaria da Nilza Azambuja, Bar do China, Sorveteria Duas Bolas (Testículos), Boteco do Irmo, Cemitério Sinistro, INSS, Posto de Saúde, entre outros...
JOSEFA - Vamos voltar para o Terminal Suburbano Jean Solto por Enquanto, onde Rosemeire está do lado de Bete Boquete, que parece furiosa... O que houve, Rose?
ROSEMEIRE - Nossa amicíssima Bete Boquete está fodida...
BETE BOQUETE - Fodida em todos os sentidos.... Que porra é essa desses ônibus voltarem a circular com o preço pela hora da morte? Nem fui pro ponto hoje. Vou ter que me virar neste buraco mesmo. Nem raspei as pernas e o sovaco. Eles estão pior que os meus pentelhos... Quem vai me comer desse jeito? (PEGA O MICROFONE E FALA PRA CÂMERA) Olha aqui, seu prefeito de bosta, o que você tá fazendo, hein, seu filho da puta? Tá fodendo com todo mundo, é? Só porque aquela loira aguada da tua mulher não cavalga mais neste teu pinto mole, você quer foder o povo? Se enxerga, mané. Se tu é um porco, ladrão, desgraçado, vai morar num chiqueiro com a porca da tua mãe... Vou comprar uma charrete e atrelar em você pra eu ir até o Canhão, seu burro chucro...
ROSEMEIRE - A coisa tá feia... Mas ninguém pode nos censurar, né, Jacinto e Josefa? Aqui o povo tem a sua vez e a sua voz... É com vocês.
JACINTO - (BEBE A CACHAÇA) Pois é... Olha, Bete Boquete, a nossa produção descolou pra você um bico aqui na TVBuf para um comercial... Venha até aqui... É um comercial que só você pode fazer, ocá?
JOSEFA - Vamos para os comerciais.
BETE BOQUETE - Obrigado pela chance, gente... (EMPOSTA A VOZ) Se você, homem, ouviu coisas grotescas de uma mulher quando te viu pelado, como: "Eu já fumei um charuto mais grosso que isso", "Posso desenhar uma carinha feliz? Ele parece estar tão tristonho.", " Você trouxe incenso? Que bonzinho.", "Se eu apertar, ele faz barulho como um patinho de brinquedo?", "As camisinhas que você trouxe não vão ficar grandes?", "Me empresta a lupa, por favor?", "O que é isso? Um bichinho de goiaba?", "Precisa encher antes de usar?", "Pra sentir cócegas com isso, é melhor ouvir uma piada" - seus problemas terminaram com Big Dick. É um aparelho que vai fazer seu bilau ficar grandão e grossão. Quando as mulheres dizem: "Não importa o tamanho e sim o prazer que ele proporciona", elas mentem. Toda mulher gosta de um pau grande e grosso... Junto com o Big Dick, você leva de brinde a Régua Pintômetro, para você medir seu cacete... Onde você se enquadra, bonitão? De 0 a 02 cm - erro lamentável, devia ter sido menina; de 03 a 04 cm - nada mais que um brinquedo; de 05 a 06 cm - curto, porém utiliza-se com gosto; de 07 a 08 cm - delícia das secretárias; de 09 a 10 cm - ideal para todas as damas; de 11 a 12 cm - para depravadas e bichas loucas; de 13 a 14 cm - rompe tudo; de 15 a 16 cm- para exibições públicas; de 17 a 18 cm - delírio de grandezas; de 19 a 20 cm - para você que sorriu ou não. Vamos amor, ligue agora para 0800696969 e peça já o seu. (PARA O ANÃO) Esse anão aqui é maior deitado do que em pé, sabe por quê? Porque ele usou o Big Dick... Use Big Dick e tenha fodas sensacionais... Um Feliz Natal, gente...
CENA 5
JACINTO - (BEBE CACHAÇA) É, tá foda... Agora, gente eu queria falar sobre um assunto bem sério... Minha mulher Josefa tá prenha de nove meses, mas ela não tem força pra parir a criança. (OUVE O PONTO) Vá se foder, diretor. Eu vou falar... A gente tá praticamente trabalhando de graça. Essa porcaria de emissora ainda não pagou o salário da gente... Onde já se viu, ficar trabalhando três meses sem receber para no quarto mês receber o salário todo descontado? Um salário de merda. E não é só a gente que tá assim. Qualquer funcionário público passa por isso quando começa a trabalhar. Os professores, que educam seus filhos, muitas vezes passam fome, porque o salário só chega - quando chega - no quarto mês de trabalho. E as contas pra pagar, hein? Você ainda tem que pagar com multa, porque ninguém ouve você, e não interessa o que te aconteceu, e se falta um dia, seu salário abaixa pra caralho. Que país é esse, porra? A que ponto chegamos? Por que tanta injustiça? Eu já não aguento mais viver assim. O que será dessa criança que vai nascer? Mais um pobre fodido? Pelo amor de Deus, nos ajudem... Algum restaurante pode, por favor, nos oferecer comida? Quem sabe assim, o meu filho nasce.
PROFETA - (ENTRA TRAZENDO DUAS MARMITEX COM ARROZ, FEIJÃO E OVO FRITO) Olha, o Restaurante Boa Xepa mandou entregar isso pra vocês.
JACINTO - Obrigado... (PROFETA ESTENDE A MÃO) O que foi?
PROFETA - Dinheiro pra caixinha da Igreja...
JACINTO -Mas não tenho dinheiro...
PROFETA - É para a primeira prestação pra compra do seu terreno no céu...
JACINTO - E quem disse que vou pro céu, caraio? Vou pro inferno direto sem passar pelo purgatório e ainda é capaz do capeta me expulsar de lá. Vá embora, vá... Vá pra puta que lhe pariu, sua escrota. (PROFETA SAI) Muito obrigado pela comida, seu dono do restaurante. Que Deus abençõe você e toda a sua família
JACINTO - Tenham todos uma boa noite.
EPÍLOGO
ATRIZ - A gente tá tão sem paciência, né? Ninguém mais tá feliz. Ninguém mais sorri... Também só pontapé, agressão, chute na canela... Você vai numa loja, a balconista te trata mal... Vai num restaurante, jogam os pratos em cima de você... Pede uma informação para a telefonista? Pumba! Batem o telefone na sua cara... Liga a televisão, é só desgraça. Vai comprar um docinho para o seu filho, já vem com cocaína... Experimenta estacionar o seu carro na rua? Se você não der dinheiro, eles vêm, riscam todo o seu carro e ainda furam os quatro pneus. No trânsito, um quer matar o outro. Se anda na rua, é assaltado. Se fica em casa é assaltado também... Todo mundo querendo ganhar dinheiro, mas sem saber o que fazer com ele: se deixa em casa, o ladrão leva; se põe no banco, pode desaparecer... É uma agonia que Deus me livre. Não tem mais "por favor", "dá licença", "pode passar na frente"... O que é isso? Onde é que a gente foi parar? Quem é que gosta de viver assim? (PAUSA) Vamos aproveitar essa energia linda que tá pintando no Natal e no Ano Novo, porque só a gente se unindo, só a gente se harmonizando, só a gente se amando, é que a gente vai conseguir ter dias melhores...
FIM
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