VOVÔ
LUCINHA
JUNINHO
GODOFREDO
VELHA DAS CAVERNAS
CACIQUE PERI
ÍNDIO UIRÁ
SEIS ÍNDIOS
PERSONAGENS DA LENDA NARRADA POR VOVÔ:
PIRATA KID
ÍNDIA EULÁLIA
DRAGÃO
QUATRO PIRATAS
TRÊS ÍNDIOS
CENÁRIO: O exterior de uma caverna com a entrada da gruta na parte superior central. Essa entrada é bem larga. Uma grade fecha toda a entrada da caverna. Essa grade só aparece no momento da prisão de Eulália, se a cena for realizada como espetáculo teatral; (se o diretor utilizar o recurso do áudio-visual, deverá descer do urdimento um ciclorama para serem projetadas as imagens da história de Eulália, não usando as grades neste momento) e da prisão de Godofredo. Duas enormes árvores, uma em cada extremo do proscênio.
(UM POUCO ANTES DO TERCEIRO SINAL, OUVE-SE NO ÁUDIO RUÍDOS DE MATA: GRILOS, CIGARRAS, COAXAR DE SAPOS, CANTO DE PÁSSAROS E O BARULHO DE UMA CACHOEIRA AO LONGE. DURANTE TODO O TRANSCORRER DO ESPETÁCULO OUVE-SE GOTEIRAS COMPASSADAS FAZENDO ECO DENTRO DA CAVERNA. BLACK-OUT. OS RUÍDOS AUMENTAM E CONTINUAM NO ESCURO. LUZ SOBE EM RESISTÊNCIA COM O PALCO NA PENUMBRA ABSOLUTA. UM VELHO E DUAS CRIANÇAS ENTRAM PELA PLATÉIA. PELA RESPIRAÇÃO PARECE QUE CAMINHARAM MUITO. CADA UM TRAZ NAS COSTAS UMA MOCHILA. TRAJAM CHAPÉUS E ROUPAS DE EXPLORADOR. AS ÚNICAS LUZES QUE ILUMINAM A CENA SÃO AS DOS FAROLETES QUE MOVEM EM TODAS AS DIREÇÕES POSSÍVEIS. QUANDO OS TRÊS SOBEM NO PALCO, A LUZ AUMENTA DE INTENSIDADE E O SOM VAI CESSANDO. LUCINHA, MUITO CANSADA, DESABA NO CHÃO).
VOVÔ - Viu porque eu não queria que vocês viessem comigo? Eu fui bem claro antes de sairmos do sítio que essa expedição não seria moleza.
JUNINHO - Mas andamos mais de três horas sem parar, vô. Precisamos descansar um pouco.
VOVÔ - Ok. Vocês venceram. Vamos descansar...
LUCINHA - (CURIOSA) O que o senhor está fazendo, vô?
VOVÔ - Tirando a sorte!
JUNINHO - Sorte? Como assim?
VOVÔ - Fazendo isso surgem várias figuras no café. Olhem. (MOSTRA A XÍCARA PARA OS MENINOS) A gente pode adivinhar a sorte pelas figuras... Formou um avião. Isso quer dizer que eu vou andar de avião. Basta saber interpretar.
JUNINHO - E isso que apareceu na minha xícara, o que é?
VOVÔ - (ANALISANDO) Deixa eu ver. Hum... parece, parece... um dragão. Isso quer dizer que você vai ver um dragão!
JUNINHO - (GAGUEJA) Um dra-dra-dragão? (APAVORADO) Eu quero ir embora.
VOVÔ - Nem pensar. Quiseram vir comigo, agora agüentem as conseqüências. O único mal é que os dragões sempre moram em cavernas. E é possível que algum deles ainda more aqui... e só vamos embora daqui depois que pusermos as mãos na arca do tesouro e entregarmos todo o ouro existente nela ao Cacique Peri, o tataraneto da índia Eulália.
LUCINHA - E se a gente não conseguir encontrar a arca?
VOVÔ - (TIRA UM MAPA DO BOLSO DA CAMISA) Claro que vamos encontrar. O mapa está claríssimo. O tesouro está enterrado aqui nessa caverna.
JUNINHO - Alguém já pode ter encontrado e levado embora...
VOVÔ - Acho pouco provável.
LUCINHA - E como o senhor pode ter tanta certeza?
VOVÔ - Essa caverna foi pouquíssimo explorada... Agora vamos descansar um pouco pra recuperar as energias e depois continuaremos nossa busca.
JUNINHO - (MEIO ASSUSTADO) E se o dragão aparecer por aqui?
VOVÔ - Fica quieto! Pára de bancar o bobo. Vamos dormir agora...
CENA 2
(ENTRAM DOIS ÍNDIOS PELA PLATÉIA. UM DELES É O BANDIDO GODOFREDO. ESTE ARRASTA O OUTRO, QUE IMPACA A TODA HORA).
(UIRÁ FAZ GESTO DE QUEM NÃO ENTENDEU)
UIRÁ - (PENSA QUE FOI ELOGIADO) Uirá índio cretino! (RI)
GODOFREDO - (IMPACIENTE) Onde eu fui amarrar meu bode! Ainda por cima esse palerma que não entende nada.
UIRÁ - Uirá palerma! (RI)
GODOFREDO - Droga! (CAMINHA ATÉ O PALCO E ENCONTRA OS TRÊS DORMINDO) Mas quem é que eu vejo? Finalmente encontrei quem procurava. Venha comigo. O mapa está com esse velho. Vamos agir antes que eles acordem.
JUNINHO - Credo! (COM UM NÓ NA GARGANTA) Socorro!
LUCINHA - (ACORDANDO) O que foi, Juninho? (QUANDO VÊ A VELHA, TAMBÉM SE ASSUSTA E FICA GRUDADA COM O IRMÃO. AMBOS TREMEM DE MEDO)
VOVÔ - (TAMBÉM ACORDA) O que foi isso?
VOVÔ - (COMPREENDE TUDO) Não precisam se assustar, crianças. É só uma mulher das cavernas...
VELHA - (FALA EM "CAVERNÊS") Oia uyts notivestes...
LUCINHA - (SEM ENTENDER) O que ela disse, Juninho?
JUNINHO - (IMITA A VELHA) Oia uyts notivestes...
LUCINHA - Ah, muito engraçado, irmãozinho. (PARA O AVÔ) Entendeu alguma coisa, vô?
VOVÔ - Não. (PRESTA ATENÇÃO NA VELHA, QUE FAZ GESTOS DESESPERADOS TENTANDO DIZER QUE DOIS HOMENS VESTIDOS DE ÍNDIO ESTIVERAM LÁ. VOVÔ VAI DECIFRANDO) Homem... vestido de índio? (A VELHA DIZ QUE SÃO DOIS) Dois homens? (FICA APAVORADO) Meu Deus!!!
LUCINHA - Por que o medo, vô? O senhor não diz sempre que é forte e corajoso?
VOVÔ - Forte e corajoso eu sou, mas a questão não é essa quando se trata de canibais.
OS DOIS - (ESPANTADÍSSIMOS) Canibais????????
VOVÔ - Sim, canibais. (PENSA) Como não pensei nisso antes? Estamos numa região infestada de índios canibais. (TIRA O MAPA DA BOTA E MOSTRA PARA SEUS NETOS) Aqui neste pontinho vermelho fica a tribo dos índios antropófagos. E neste ponto preto fica a tribo do Cacique Peri. No passado, todos eles foram muito maltratados e explorados pelos brancos e quando se enfurecem devoram carne humana. Os primeiros continuam antropófagos, mas a tribo do Cacique Peri deixou de ser. Mas se se enfurecerem, voltam a ser o que eram antes, ou seja, canibais... E se nós não conseguirmos encontrar a arca ou falar a mesma língua a respeito do que nos trouxe para cá, vamos todos virar picadinho. (AS CRIANÇAS ENGOLEM EM SECO) Precisamos agir bem rápido.
VOVÔ - Ela disse que expulsou os índios daqui e que vai nos proteger.
LUCINHA - Mas vô, por que o senhor veio atrás desse tesouro mesmo sabendo dos perigos que correria?
VOVÔ - É uma longa história, Lucinha!
JUNINHO - Conte pra gente, então...
VOVÔ - (OFF) Segundo minhas pesquisas, isso aconteceu na época em que os piratas infestavam os mares. Como vocês sabem os piratas eram loucos por tesouros. Acho que não pensavam em outra coisa. Bastava que descobrissem algum valor e pronto. Já iam atrás. Um dos piratas chamado Kid, navegava em pleno mar...
VOVÔ - (OFF) ...quando viu que estava sendo perseguido por navios de guerra.
VOVÔ - (OFF) Tratou de fugir. Sabendo que acabaria por ser capturado, pois os perseguidores eram muito mais velozes do que ele pensou num modo de esconder o que lhe era mais caro: o tesouro que levava em seu barco. Os navios perseguidores se encontravam mais perto.
VOVÔ - (OFF) Os piratas, vendo que a abordagem seria inevitável, empunharam as armas e esperaram.
VOVÔ - (OFF) Os perseguidores, porém, não estavam dispostos a lutar com os piratas e resolveram afundar o barco de Kid. O barco foi afundado e os piratas abandonados à sua sorte.
VOVÔ - (OFF) Morreram todos afogados, menos Kid, que ferido, conseguiu se arrastar até a ilha mais próxima, carregando nos braços todo o seu tesouro.
VOVÔ - (OFF) Como os perseguidores não tinham visto o pirata com a arca, tomaram o rumo de volta. Quando Kid estava próximo da Caverna do Dragão, apareceu o grande monstro que ficou cara-a-cara com ele.
PIRATA KID - (ARQUEJANTE) Se você guardar para sempre este tesouro, poderá se tornar dono dele... Mas não poderá deixar que ninguém toque nele!
PIRATA KID - Lembre-se disso: Se você guardar para sempre este tesouro poderá se tornar dono dele. Mas não poderá deixar que ninguém toque nele! (FALA COM DIFICULDADE) Ninguém! Ninguém! Ninguém! (MORRE)
(SE A CENA ESTIVER SENDO REALIZADA NA LINGUAGEM TEATRAL, A LUZ VOLTA NOVAMENTE PARA O PLANO DA REALIDADE. NA LINGUAGEM DO ÁUDIO-VISUAL, AS IMAGENS SERÃO INTERROMPIDAS POR UM MOMENTO. A VELHA, LUCINHA E JUNINHO OUVEM ATENTOS A HISTÓRIA DE VOVÔ).
LUCINHA - Mas pra quê um dragão quer um tesouro se ele nem sabe no que gastar?
VOVÔ - Talvez pelo prazer de se sentir dono de uma coisa tão valiosa. "Que coisa maravilhosa", ele deve ter pensado. E era tudo dele!... Poucas pessoas conseguiram ver esse monstro. As que viram nunca mais chegaram perto dessa Caverna.
JUNINHO - Eu é que não quero ver esse bicho!
LUCINHA - Nem eu.
VOVÔ - Embora o dragão estivesse aqui há muito tempo, só houve um caso grave... Eulália era a índia mais bonita do lugar...
(EULÁLIA, UMA BELÍSSIMA ÍNDIA APARECE SEGURANDO UMA FLOR AMARELA, QUE PÕE ATRÁS DA ORELHA DIREITA)
(EULÁLIA SE APROXIMA DA GRUTA E FICA DE COSTAS PARA SUA ENTRADA)
(EULÁLIA GRITA DESESPERADA. O DRAGÃO TRANCA-A NUMA ENORME CELA, FICANDO JUNTO COM ELA. ABRE A ARCA E TIRA DE LÁ, COLARES DE PÉROLAS, ANÉIS DE OURO, BRINCOS DE PRATA, PULSEIRAS DE DIAMANTES E COBRE EULÁLIA COM O TESOURO).
(O DRAGÃO FICA OLHANDO PARA ELA, ADMIRANDO SUA BELEZA. A ÍNDIA, MESMO COBERTA COM TODAS AQUELAS JÓIAS, TEM O OLHAR MELANCÓLICO E SUSPIRA PROFUNDAMENTE).
LUCINHA - E por quê o nome desta gruta é Caverna dos Suspiros?
VOVÔ - Porque algumas pessoas que tiveram a coragem de passar mais ou menos perto da gruta, contaram que a moça prisioneira do dragão costumava dizer...
EULÁLIA - (SEGURA NAS GRADES, SUSPIRANDO) Ah, se eu pudesse ir pra minha tribo! Se eu pudesse sair daqui... (SUSPIRA MAIS FORTE) Ah, se eu pudesse sair daqui...
VOVÔ -...e depois dava uma porção de suspiros. Suspirava que dava pena. O povo que antes chamava a gruta de Caverna do Dragão, com o tempo passou a chamá-la de Caverna dos Suspiros... Eulália, não agüentando mais tanto sofrimento... morreu... e o dragão, desesperado, guardou todas as jóias, enterrou a arca, não cuspiu mais fogo e simplesmente desapareceu sem deixar vestígio algum...
JUNINHO - Que história triste!
LUCINHA - E por que o senhor quer entregar esse tesouro ao tataraneto de Eulália, vô? Não tem medo que eles nos matem?
VOVÔ - Claro. Mas precisamos arriscar. Meu único medo é não conseguir explicar isso tudo para esse Cacique. Se conseguirmos, entregaremos a arca para ele e aí nós vamos embora, enquanto o Cacique, junto com sua tribo decidirão o que fazer com o tesouro.
JUNINHO - Tô com sono. Eu queria cochilar um pouco, mas tenho medo que o dragão apareça...
VELHA - Grustrfhgi ababa uie... (DIZ QUE FICARÁ ACORDADA PARA PROTEGÊ-LOS)
VOVÔ - Não se preocupe. Ela disse que vai ficar acordada olhando pela gente.
CENA 3
(ENTRAM PELO FUNDO, GODOFREDO E UIRÁ. OS DOIS ESTÃO COM A CABEÇA ENFAIXADA DEVIDO A PORRETADA DA VELHA. A VELHA CONTINUA DORMINDO E RONCA MUITO ALTO)
UIRÁ - Uirá índio bom. Uirá não mata nem mosca!
GODOFREDO- É claro que não vamos matar ninguém, é só para assustar, ô infeliz... (SONHA) Eu tenho que encontrar esse mapa. Vou ficar riquíssimo e todas as pessoas desse planeta serão meus escravos... (RISO MACABRO) Ninguém nunca passou Godofredo Fedorento Ranhento para trás, e não vai ser esse velho que vai passar. (PAUSA) Pelo que parece, o mapa está muito bem escondido. A solução é seqüestrar a menina.
GODOFREDO - (SARCÁSTICO) Pensando que ia sair feliz de novo? Se danou, sua uva passa de panetone. Dessa vez, fui eu que me dei bem. (A VELHA TENTA FAZER DE TUDO PARA ESCAPAR, MAS NÃO CONSEGUE) Você vai ficar aí, velha escamosa, bem quietinha. Não adianta espernear. Quando o velhote acordar, estaremos lá no acampamento do Cacique Peri com a menina e se ele não me entregar o mapa, adeus menina!
JUNINHO - Os índios antropófagos levaram a Lucinha. (SACODE O AVÔ) Vô, vô, acorde! A Lucinha sumiu. Acorde, vô. (VOVÔ ACORDA) Levaram a Lucinha!
VOVÔ - (ASSUSTADO) Quem?
JUNINHO - Sei lá, acho que foram os índios... Olhe, amarraram a Velha...
VELHA - Bilinguinstra ababa dertghiopljk mitnarotovra... (TENTA DIZER QUE DOIS ÍNDIOS ESTIVERAM LÁ E LEVARAM A MENINA)
VOVÔ - Índio? (ELA FAZ "DOIS" COM OS DEDOS) Dois índios? ... São os canibais...
JUNINHO - (ENCONTRA O BILHETE) Olha, deixaram um bilhete.
VOVÔ - Meus óculos! (REMEXE NA MOCHILA E POR FIM OS ENCONTRA. SUAS MÃOS ESTÃO TRÊMULAS. PEGA O BILHETE DAS MÃOS DE JUNINHO E LÊ) "Velho Esclerosado..." (VOVÔ FICA PERPLEXO) O que é isso?
JUNINHO - Estão te chamando de "esclerosado"...
VOVÔ - (PASMO E OFENDIDO) Que desrespeito!
JUNINHO - (ANSIOSO) Continue...
VOVÔ - (LÊ) "Velho esclerosado. Ou você traz o mapa no acampamento do Cacique Peri hoje às onze horas ou teremos no almoço picadinho feito com a carne da menina. Assinado: Uirá, filho do Cacique Peri".
VOVÔ - (TIRA DA BOTA O MAPA E COM ELE NA MÃO ANDA DE UM LADO PARA OUTRO) Que situação! O que fazer? Os índios estão enfurecidos de novo e são capazes de causar uma desgraça.
JUNINHO - Lucinha ou o mapa...
VOVÔ - Eu preciso cumprir minha missão. Eu não vim aqui à toa. Esse mapa é muito importante pra mim.
JUNINHO - Mas a Lucinha é muito mais importante.
VOVÔ - Você tem razão. Vamos entregar o mapa para os índios e pegar a Lucinha de volta.
JUNINHO - Eu tive uma idéia genial.
VOVÔ - Qual?
JUNINHO - Vamos até o acampamento disfarçados de índios pra tentar encontrar a Lucinha. Quando a gente encontrar, vamos seqüestra-la de volta e sair correndo sem entregar o mapa... O que acha da idéia?
VOVÔ - Não sei. Isso pode ser uma armadilha pra gente... O melhor a fazer é ir ao encontro deles, entregar o mapa, pegar Lucinha de volta, voltar pro sítio e esquecer definitivamente dos objetivos que nos trouxeram pra cá. Venham comigo...
CENA 4
(DO LADO OPOSTO APARECEM UIRÁ E GODOFREDO, QUE TRAZ LUCINHA, AINDA AMORDAÇADA)
UIRÁ - (RINDO) Índio infeliz toma conta menina!
GODOFREDO - (SAI, IMITANDO UM ÍNDIO) Uuuuuuuuuuuuu...
UIRÁ - Uirá não come agora. Uirá brincando, hi!hi!hi!... Cacique Peri, índio Uirá e tribo toda põe menina meio roda e faz assim ó... (FAZ UMA COREOGRAFIA INDÍGENA. LUCINHA DESMAIA. UIRÁ SE ASSUSTA) Que cagada! Uirá mocorongo esconder menina...
CENA 5
(ENTRAM GODOFREDO E CACIQUE PERI)
CACIQUE PERI - Cacique queimado, nunca! Cacique reunir tribo, prender homem branco fazer picadinho.
GODOFREDO - Espere mais um pouco. Preciso do velho vivo para que eu possa conversar com ele com calma.
CACIQUE PERI - Mim queimado, nunca! Mim queimado, nunca! Cacique buscar tribo prender homem branco! Vou já, já...
GODOFREDO - Olha o velho, o neto dele e a velha escamosa, Cacique!
CACIQUE - (CHAMA OUTROS ÍNDIOS COM UM ASSOBIO. TODOS APARECEM CORRENDO) Prendam esses querem queimar Cacique destruir tribo toda!
JUNINHO - Não temos mais saída. Vamos todos virar picadinho. (CHORA)
CACIQUE PERI - (PARA OS TRÊS) Onde tá filho Uirá, velho ruim?
VOVÔ - Eu nem sei quem é seu filho, seu Cacique. Viemos aqui para cumprir uma missão importantíssima... E se trata de uma missão de paz...
CACIQUE PERI - Velho mente. Cacique não acredita gente branca. Gente branca tudo mentirosa. Gente branca raça ruim. Cacique e tribo deixou ser canibal depois dragão prendeu índia Eulália, tataravó Cacique, mas quando aparece gente branca ruim, come tudo sem dó. Cacique reunir tribo comer gente branca. Vou procurar tempero mato. (SAI)
GODOFREDO - (PARA O VELHO) Se me entregar o mapa, eu solto vocês.
VOVÔ - E como posso ter certeza disso?
GODOFREDO - Eu não minto jamais.
VOVÔ - E minha neta Lucinha?
GODOFREDO - Ela está bem. O índio Uirá está cuidando dela.
VOVÔ - (FALA COM SEUS BOTÕES) Minha neta já virou picadinho... Que horror!
CACIQUE PERI - (ENTRANDO COM O TEMPERO) Cacique vai comer três já, já!
GODOFREDO - Espere um pouco, seu Cacique.
CACIQUE PERI - Cacique e tribo come tudo agora!
VOVÔ - Cacique Peri, mesmo que a gente vire assado, fique com esse mapa. (TIRA O MAPA DE UM BOLSO ESCONDIDO DA CAMISA) Esse é o mapa que leva à arca do tesouro que pertenceu ao pirata Kid. Esse tesouro está enterrado bem no fundo da Caverna dos Suspiros, exatamente na cela onde Eulália ficou presa. A gente veio aqui pra isso. Não pra roubar, matar, queimar, mas para lhe entregar esse mapa.
CACIQUE PERI - Homem branco dizer verdade?
VOVÔ - Sim.
CACIQUE PERI - Homem branco gente boa!
GODOFREDO - (DESESPERADO) Não, Cacique. O velho é mentiroso. Ele não é bom. Ele mente porque quer que o senhor tire eles daí para que eles possam destruir toda a tribo.
VOVÔ - (EMPUNHA O MAPA) Pegue esse mapa, seu Cacique...
GODOFREDO - (RINDO) Finalmente consegui o que tanto queria. Eu me amo! (BEIJA SUAS MÃOS, BRAÇOS ETC) O que seria de mim sem mim! Como é bom ser mau... (SAI RINDO)
VOVÔ - (GRITANDO) Ladrão! Ordinário!
JUNINHO - (IDEM AO AVÔ) Safado! Sem-vergonha!
VELHA - (IDEM AOS DOIS) Junglingue! Oiomeie!
CACIQUE PERI - (AO VER UIRÁ) Filho Uirá vivo! (CORRE ABRAÇAR O FILHO)
VOVÔ - Lucinha também...
LUCINHA - (CORRE) Vovô, Juninho, Velha!... (ABRAÇA OS TRÊS)
CACIQUE PERI - (PARA UIRÁ) Algum deles maltratou filho Uirá?
UIRÁ - Não, papai Cacique. O índio Godofredo fez Uirá roubar menina. Mas menina muito boa. Uirá mocorongo ficou dó dela amarrada e tirei mordaça e corda prendia ela.
GODOFREDO - O tesouro é meu. Só meu... Estou rico, rico... Muito ouro, ouro, ouro! (VAI SAINDO. CACIQUE PERI ENTRA NA SUA FRENTE) Sai da frente, seu idiota!
CACIQUE PERI - Godofredo mentiroso! Toda tribo almoçar Godofredo!
GODOFREDO - Me soltem, seus índios fedorentos de uma figa! Vou me vingar de todos vocês. Um por um, seus idiotas. (AMORDAÇAM-NO. ELE FICA RESMUNGANDO O TEMPO TODO).
VOVÔ - (SATISFEITO) Agora que cumpri minha missão, vamos voltar pro nosso sítio, crianças.
CACIQUE PERI - Cacique Peri dá metade ouro pra homem branco!
VOVÔ - (DIGNO) Me desculpe, seu Cacique, mas não vou aceitar. Esse tesouro não tem valor nenhum pra mim. Não vim aqui com a intenção de querer o ouro. Todo o tesouro pertence a você e a sua tribo... Sabemos que a tribo está passando por dificuldades e esse tesouro irá ajudá-los a superá-las. É uma recompensa...Claro que esse tesouro não vai apagar a dor da tribo em relação à Eulália, mas com ele o senhor poderá dar uma vida mais digna para o seu povo... Só te peço uma coisa: solte esse ensebado xexelento. (APONTA GODOFREDO) Mais cedo ou mais tarde ele vai ter o castigo que merece
CACIQUE PERI - Não. Cacique Peri começar ritual...
VOVÔ - Não faz isso, seu Cacique.
CACIQUE - (NUM GRITO) Páraaaaaa!... (OS ÍNDIOS PARAM) Carne bandido muito dura! Carne bandido dá dor barriga. Bandido deixar Cacique e tribo caganeira!
GODOFREDO - Vou me vingar de todos vocês! Não me chamo Godofredo se isso não acontecer...
GODOFREDO - (PRESO; CHACOALHA AS GRADES) Alguém me ajude! Me tirem daqui! Não deixem que esse monstro me faça mal!... Eu sou muito jovem pra morrer!... Vocês todos vão me pagar, malditos! (COMEÇA A SUSPIRAR)
VELHA - Tadeshimã acobaquire! (DIZ QUE VAI SENTIR SAUDADES)
VOVÔ - Nós também vamos sentir saudades, mas logo, logo voltaremos aqui pra visitar vocês, certo? Até breve!!!
NOTA: O texto foi baseado numa lenda indígena. Criei um vocabulário próprio para a Velha das Cavernas, o "cavernês", assim como o dialeto indígena que não é o tupi-guarani nem outro dialeto. Trata-se de uma brincadeira com a linguagem, que deverá ser explorada ao máximo.
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